Colaboração dos Leitores Uma vez passei o Natal em Macomia (Moçambique), com o Pe. Gonçalves, porque o Pe. Paulo estava doente. Padre era coisa rara naquela missão de 12000 Km2 (isso mesmo, doze mil quilómetros quadrados, mais de 25 anos sem padre residente por causa da guerra civil e… da nossa falta de recursos humanos, quando a guerra acabou). Depois da festa, a comunidade quer um encontro com os padres. O nosso almoço fica para as cinco da tarde, o deles para quando tiverem vencido os 30 ou 40 quilómetros que os separam de casa. Mas ninguém tem pressa.
Um velho resolveu dirigir-se a mim, mais ou menos com estas palavras: “Ensinaram-me no catecumenato que a Igreja é um corpo. Cristo é a cabeça, nós os membros. A nossa missão, tão desprezada, é a unha do dedo pequeno do pé. Mas, quando a unha do dedo pequeno do meu pé se inflama, todo o pé incha, e todo o corpo fica doente com febre. Todas as partes do corpo sentem. Agora começo a duvidar: a Igreja é um corpo? Por que é que as outras partes da Igreja não sentem a dor do dedo pequeno do pé que está doente? Eu sei que faltam padres. Mas outra paróquia podia ficar uns três anos sem padre para vir um morar aqui. Quando é que nós vamos deixar de sofrer esta falta?”
O velho engasgou-me. Já contei esta história em muitas pregações de animação missionária.
A Igreja é corpo, a humanidade é família de Deus. No entanto, dói-nos pouco a diminuição de dez anos de expectativa de vida dos africanos, a fome de mil milhões, a falta de escolas em tantos países, a guerra do petróleo ou a das matérias-primas para os fios finíssimos dos telemóveis que não dispensamos. Incomodam-nos os drogados, mas somos incapazes de olhar os traumas que levam os jovens por esses caminhos.
A Missão (de quem recebeu o dom da vida e, mais ainda, a do que foi “incorporado” pelo baptismo na Família de Deus) é ultrapassar as barreiras que criamos à volta de nós mesmos, para sermos felizes no nosso castelo dourado. É abrir corações, para “ter os mesmos sentimentos de Cristo” (Fil. 2). É deixar o coração ser invadido pela dor dos outros, de perto e de longe. É construir pontes com os “confins” do meu bairro, do meu país, e de outros povos que nos poderiam oferecer uma felicidade mais profunda, pela partilha mútua.
Missão é derrubar fronteiras absurdas, e montar fios de comunicação pelos quais pode passar o Espírito para quem envia e quem recebe. É o Espírito que faz Babel desmoronar e nascer a nova globalização da solidariedade.
Jerónimo Nunes
Missionário da Boa-Nova
