“A Igreja propõe, não impõe nada; respeita as pessoas e as culturas, detendo-se diante do sacrário da consciência”, escrevia o Papa João Paulo II, na Redemptoris Missio, n.º39, a 7 de Dezembro de 1990.
De forma clara desde o pontificado de Paulo VI que se proclamava o diálogo como integrante da evangelização, precisamente no sentido de ser superada uma apologética “demonstrativa”, em favor de uma proposta interpelativa. Ou seja: uma evangelização que seja inculturação sem diluição do Evangelho, em perfeita comunhão eclesial, como estímulo e serviço à liberdade e dignidade humanas.
Num mês de Outubro, de há muito o mês missionário, em contexto de feroz intolerância religiosa em algumas zonas do mundo, acusando os católicos de proselitismo, é bom lembrar o essencial dessa Encíclica do saudoso Papa.
É verdade que a graça não está enclausurada nas fronteiras da Igreja e que existem Sementes do Verbo no seio de religiões e culturas. Todavia, a Igreja tem o mandato: “Ide e ensinai”… A Igreja é missão. E essa missão é essencialmente manifestar Cristo, pelas expressões de amor que O revelam, a todos, já que todos têm o direito de O conhecer, para n’Ele acreditar e serem salvos.
Isto significa que a Igreja vive a missão empenhando-se em cuidar pastoralmente os que a integram e vivem de acordo com o Evangelho; mas tem de interpelar – com novo impulso, nova linguagem, métodos criativos – aqueles que conheceram mal ou esqueceram já o Senhor que conheceram; e não pode deixar de anunciar Jesus Cristo onde não foi anunciado, ainda que à custa do martírio.
Conscientes de que esta tríplice situação – praticantes, afastados, desconhecedores – é hoje uma realidade presente em toda a parte, reclamando verdadeira missão no seio das próprias comunidades humanas em que vivem as nossas comunidades cristãs, tal não pode limitar-nos os horizontes da preocupação paulina “Ai de mim, se não evangelizar”!
O diálogo ecuménico, o diálogo inter-religioso, o diálogo cultural não podem relativizar a essencialidade de Jesus Cristo no drama da Salvação; por consequência, não podemos, de forma alguma, dispensar-nos de uma evangelização explícita. Uma silenciosa proclamação pelo testemunho, esclarecida pelo anúncio claro e “provocante”.
Anunciar insistentemente, sem desânimos, nem abrandamentos. Essa é a oferta, que suscitará sempre uma resposta: de acolhimento, indiferença ou recusa. Nada tem de proselitista. Ninguém ousará erguer a ameaça “Crês ou morres”. Antes se revestirá da paciência do semeador que persiste, mesmo sabendo que o terreno não é igual e a resposta será, por isso, também desigual.
