Mistura explosiva!

Repetem-se as manifestações. Agora já não é um pretexto imediato de uma política inclusiva das diversidades culturais e étnicas. É a questão do contrato do primeiro emprego. Certo é que os sintomas são os mesmos; os resultados são de perturbação crescente.

É explosiva a mistura dos sonhos com as desilusões. Em qualquer parte da Europa, em qualquer parte do Mundo. Sobretudo quando os sonhos se vivem como as portas do futuro! Embater, na realidade, com portas de segurança bloqueadas, restando a sensação de clausura insuperável, desencadeia reacções que ultrapassam a loucura!

Uma sociedade perversa subverte todas as áreas que a desenham, desde o trabalho à educação, desde a família ao sistema jurídico. Sempre que se trocam os eixos do progresso, que se desviam as traves mestras do desenvolvimento, o edifício social estremece e pode ruir como um baralho de cartas.

A Europa foi sonhada com alma. Os herdeiros desse sonho perverteram o projecto. Aos alicerces dos valores retiraram as pedras consistentes dos princípios espirituais e morais, reduzindo-os a movediças areias do relativismo. A estrutura de segurança vertebrada pela primazia da pessoa humana, concebida como sujeito da própria construção e insolúvel no fluido dos interesses materiais, foi substituída por uma concepção utilitarista da mesma pessoa, peça de máquina “robotizável”, de duração controlada…

A economia resultou, portanto, programada em função de quem tem os meios, as mais das vezes sem rosto, porque a globalização retirou a possibilidade de identificar “quem manda”. A “educação” delineou-se para “fabricar” agentes deste sistema, que mais não serão do que vítimas, logo que se esgote o seu período de validade ou a sua actualidade de utilização.

A desorientação generalizou-se, com multidões à procura de um lugar ao sol, presas fáceis dos vendedores de ilusões: gente a mais para o que não é preciso, gente a menos para o que é fundamental. Não há mais o culto da vocação: “que qualidades tenho, que necessita o Mundo de mim, como preparar-me para ser útil e me sentir realizado”… Patrões por excelência, os Estados são impessoais e não sabem gerir pessoas!

É possível, com artes de alquimista, semear sonhos, decantar desilusões… e produzir punções de vida, mesmo em meio de profundas crises. Quem vem, profeticamente, gritar a esta Europa o segredo para reabrir as suas portas de segurança?!