Mitos?…

É das lembranças mais recuadas que me povoam a memória. No princípio da escola primária, cujo edifício era à margem da “estrada real”, a única via que ligava o Porto a Lisboa, fomos mobilizados, com bata a rigor e bandeirinhas portuguesas e brasileiras, para bordejar a estrada nacional e aclamar a comitiva presidencial que iria passar.

Tratava-se de uma visita de Estado do Presidente Café Filho. Conhecíamos bem o nosso Presidente da República de então e sabíamos ainda que lá longe tínhamos um País Irmão, até porque da nossa terra bastantes pessoas tinham emigrado para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

Cumprimos garbosamente a nossa obrigação de festejar a passagem das personalidades, convictos de que estávamos a honrar dignos símbolos da nossa pátria e da segunda pátria de parentes nossos. Não nos sentimos em nada manipulados. Antes foi uma honra que nem todas as terras de Portugal puderam ter.

Ainda sucedeu mais alguma vez essa chamada à beira da estrada para cerimoniais semelhantes. Ali, onde nessa altura ainda se podia jogar à bola, porque havia mais do que tempo para nos afastarmos e deixar passar os raros automóveis, prestámos guarda de honra – mesmo que não oficial – aos supremos magistrados da Nação e, ainda que timidamente, a candidatos que ousavam ser oposição nesses tempos difíceis.

Não eram mitos as figuras que povoavam as nossas cabeças. Mas eram pessoas por quem nutríamos admiração, que – sem discutir por que razões e com que estratégias – se nos impunham como respeitosas e significativas para o andar da vida pública.

Em vésperas de eleição presidencial não me move qualquer saudosismo desses tempos. Mas sobra-me esta sensação e impressão de que lidávamos com pessoas sérias. E essa eu gostaria de a ter a respeito de todos os candidatos ao voto do próximo domingo. De alguns, fica-me a agradável imagem de que se esforçaram por isso, por se apresentar como gente respeitável. Faltou, porventura, agora que sou crescido e que podemos discutir livremente o perfil do Presidente, suficiente oferta de ideias para perceber bem o que se propõem. De outros, francamente tenho pena que a democracia os produza!