Aveirenses Esquecidos A Fábrica Jerónimo Pereira Campos foi, durante meio século, a “segunda casa” de Silvério Damas. Nesta empresa onde entrou como aprendiz e saiu mestre.
Silvério Damas nasceu em Ílhavo, terra onde sempre residiu, ainda que, por motivos profissionais, se tenha deslocado frequentemente para outras cidades portuguesas, nomeadamente Lisboa e Viana do Castelo. Faleceu no ano de 1999, com a idade de 88 anos.
Como era usual no primeiro quartel do século XX, também Silvério Damas iniciou muito cedo a aprendizagem de uma profissão. Por isso, com dez anos de idade estava já na Fábrica Jerónimo Pereira Campos, empresa que então ocupava o edifício que hoje alberga o Centro Cultural e de Congressos de Aveiro e o Instituto de Emprego e Formação Profissional de Aveiro.
“O meu avô, quando começou a trabalhar na Fábrica Jerónimo Pereira Campos, primeiro foi moço de recados, depois passou a trabalhar com barro e a ajudar a carregar barro”, refere Rosa Lurdes Vieira Damas, neta de Silvério Damas. “Como o meu avô tinha muito jeito para o desenho, começou também a desenhar e a fazer figuras em barro. A partir daí, toda a sua vida foi a fazer modelação em barro e em grés”, prossegue.
Arte na Fábrica Campos
Apesar da maioria dos aveirenses actuais associar a Fábrica Jerónimo Pereira Campos à indústria do barro vermelho, nomeadamente à manufactura de telhas, tijolos e artigos afins, o certo é que naquele tempo, nessa unidade fabril também se executavam peças artísticas, muitas das quais obras escultóricas únicas. Nesse tempo, a par da modelagem de peças únicas, naquela antiga fábrica também se faziam peças decorativas a partir de moldes, os quais eram feitos em grés ou em barro, entre os quais, os criados por Silvério Damas.
Entre Aveiro e Viana
A neta do artista recorda que o seu avô concebeu muitas peças únicas, “muitas delas encomendadas por entidades, nomeadamente escolas, como aconteceu com a Escola Comercial e Industrial de Aveiro, que actualmente é a Escola Secundária Dr. Mário Sacramento. Nesta escola há algumas peças únicas feitas pelo meu avô, Silvério Vieira Damas”.
Nessa época, a empresa Jerónimo Pereira Campos também possuía uma outra fábrica em Viana do Castelo, à qual Silvério Damas se deslocava frequentemente para ensinar a fazer mistura dos barros, em especial nos que eram usados na Fábrica de Louças de Viana.
Na área da modelagem artística, Silvério Damas foi um autodidacta. Aprendeu à sua custa enquanto funcionário da Fábrica Jerónimo Pereira Campos. Em horário pós-laboral, estudou na antiga Escola Comercial e Industrial de Aveiro, onde tirou o curso industrial.
Espólio doado
ao Museu de Ílhavo
Nas antigas instalações do Museu de Ílhavo também havia várias peças da autoria de Silvério Damas, recorda a neta. Rosa Lurdes Vieira Damas revela que em sua casa existe um considerável espólio de desenhos e peças criadas pelo seu avô, obras que foram doadas ao Museu de Ílhavo. “No entanto, este museu ainda não conseguiu arranjar um local para guardar essas peças, pelo que continuamos a aguardar que nos digam alguma coisa sobre o assunto”, afirma.
Depois de se reformar, aos 75 anos de idade, Silvério Damas não abandonou a arte da modelagem e da cerâmica, passando então “a dar algumas aulas de formação na Cerâmica Santo António, em Esgueira, onde ensinou vários alunos a modelar barro, a fazer azulejo, a modelar em alto e em baixo relevo”. Nessa antiga olaria, Silvério Damas trabalhou com Fernando José Morgado, artista plástico ilhavense que actualmente é também formador cerâmico no CEARTE (no Centro de Emprego e Formação Profissional de Aveiro). Neste momento, ainda há alguns antigos formandos de Silvério Damas que se mantêm activos na área da cerâmica.
A par da Cerâmica Santo António, Silvério Damas também trabalhou na oficina e ateliê de Jorge Corte Real, que existiu no Bairro do Liceu, sobretudo na produção de azulejos decorativos em alto-relevo.
O único filho de Silvério Damas não seguiu as pisadas do pai, tal como aconteceu com as suas duas netas. Um dos bisnetos gosta muito de trabalhos artesanais, incluindo em barro, mas só “faz bricolage por desporto”.
Cardoso Ferreira
Vasta intervenção cívica e cultural
Durante muitos anos, no período que antecedeu o 25 de Abril de 1974, Silvério Damas foi presidente do Sindicato de Cerâmica e presidiu também à Federação das Caixas de Previdência, então sedeada em Lisboa. “O meu avô sempre puxava tudo para os trabalhadores”, recorda a sua neta. Por esse motivo, deslocava-se frequentemente a Lisboa, embora sempre tenha residido em Ílhavo e trabalhado em Aveiro.
A nível cultural, Silvério Damas fez parte do Coro dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, de uma banda e de um grupo de teatro que existiu em Ílhavo, tendo também organizado inúmeras excursões turísticas, culturais e religiosas (sobretudo a Fátima), e foi ainda sócio benemérito da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.
Silvério Damas também se interessou pelo desporto, tendo sido durante muito tempo o sócio mais antigo do Beira-Mar (número 27). Foi também sócio do Illiabum Clube.
