“Moral de sacristia”

A Árvore de Zaqueu Pode-se dizer que em todas as culturas conhecidas se dá particular importância à harmonia do universo, como algo que importa conhecer, defender e imitar: é uma questão de sabedoria – que não nos convém transformar em perigosa questão de mero poder.

E em todas as culturas encontramos a tendência de polarizar o bem e o mal (o “puro” e o “impuro”), dando origem a rebuscadíssimas e infindas descrições e classificações. Estas classificações sempre foram manipuláveis, mas a argúcia e astúcia humanas, com doses variáveis de oportunismo e maldade, têm desenvolvido uma verdadeira rede que aprisiona quem não sabe resistir (muitas vezes devido à preguiça para pensar sem preconceitos e para agir correctamente). Mas só pensando honestamente é que podemos aproximar-nos da verdade latente nestas formas históricas do bem e do mal – e a Humanidade progride quando perscruta continuamente o seu segredo e mantém uma saudável inquietação acerca da razão de ser da vida.

O agrado ou repugnância, no campo dos cinco sentidos, estarão na origem destas sensações e sentimentos: tudo o que destrói a beleza, a conveniência, numa palavra, a ordem… é mau, é pecaminoso (na ordem moral) – é impuro.

A própria palavra grega “cosmos” significa ordem, beleza e glória. As religiões integram na sua mundividência estes conceitos e os sentimentos a eles ligados. O Antigo Testamento considera a “ordem cósmica” na figura de três círculos concêntricos: o impuro, o puro e o santo (ou sagrado). O puro tanto pode ser degradado pelo impuro como aperfeiçoado pelo sagrado. Pertence ao ser humano manter ou não o ideal de um mundo de beleza e harmonia, e por isso o próprio Livro dos Levitas (dedicados à administração e ordem do sagrado) propõe a todos os membros do povo esta divisa: “Sede santos” (Levítico 11,44). De certo modo, é um “povo escolhido” para manifestar a perfeição divina do universo.

Como natural “centro do universo”, pelo menos do ponto de vista funcional, o ser humano é alvo preferido das injunções sobre pureza e impureza: o seu aspecto tem que reflectir agrado (beleza), pelo que as doenças de pele são “impuras”; e na sua relação com os outros, com os animais e os alimentos, tem que se abster de comportamentos “abjectos”, como o homicídio, adultério e o contacto com o que é expelido do corpo, com os cadáveres e qualquer objecto manchado. A actividade sexual também torna o ser humano momentaneamente impuro (a origem desta listagem perde-se nos tempos mais antigos, sem relação directa com a religião, a higiene ou a economia).

O Homem é o guardião da beleza do universo, do equilíbrio estético, da qualidade de vida, da harmonia social. Se permite que o impuro afecte o sagrado, dá-se a profanação (e portanto, no pensamento primitivo, infelizmente ainda bastante em vigor, o seu responsável merece ser destruído).

O evangelho de hoje mostra que Jesus quis superar a segregação dos «impuros leprosos», não com palavras bonitas mas trazendo-lhes a cura, sem esquecer que se devem apresentar perante os sacerdotes, para não terem medo da união com «o sagrado». No seguimento de Jesus, os discípulos acabariam por abolir a distinção entre coisas puras e impuras, colocando no coração de cada pessoa a responsabilidade pelo bem e pelo mal (Marcos 7,14-23).

No domingo de hoje, até a 2.ª leitura toca o mesmo tema: convém não ferir os preconceitos dos outros, mas ajudá-los a ver melhor e sobretudo a ver que em todas as coisas podemos e devemos encontrar e saborear o Bem: “a comer, a beber, em qualquer outra coisa… em tudo se pode dar glória a Deus” – a fonte da Beleza e do Prazer.

E a que propósito “moral de sacristia”?

A expressão “de sacristia” evoca uma espécie de cheiro a mofo, a baixo nível de qualidade, a beatice, ritualismo, servidão… E no entanto, a sacristia, como o próprio nome indica, deveria ser “o vestíbulo do sagrado” e como tal, da fonte de beleza e perfeição do universo.

Mas a “moral de sacristia” é uma «moral engavetada» como as alfaias litúrgicas. “Deitar discurso na sacristia” é falar como se fosse a única autoridade (ou talvez como a única pessoa que lida de perto com pessoas e objectos do mundo do sagrado – um mundo que para muitos não passa de ídolos frios de bom metal ou ídolos fugazes de carne e osso…).

Como Jesus Cristo deu exemplo, a cura faz-se contactando as pessoas e não legislando sobre as pessoas. A lei deve reflectir a proximidade e análise das condições de vida humana. É muito cómodo falar e dar receitas de dentro da (má!) sacristia, sem a coragem de contactar e comprometer-se verdadeiramente com a ordem do universo e particularmente com a justiça entre os seres humanos.

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)