No passado dia 26 de Janeiro, um homem com cinquenta e poucos anos, sem abrigo, não resistiu ao frio que se fez sentir na madrugada de Domingo para segunda-feira.
Foi mesmo no coração da nossa cidade de Aveiro que este triste e vergonhoso acontecimento se deu. Pela manhã desse dia foi visto pela primeira pessoa que por ali passou. Ao deparar com aquele cenário não resistiu em se aproximar e pouco mais havia a fazer. “Deve estar morto” era a frase que mais se ouvia daqueles que se iam juntando. Chegaram os Bombeiros, logo de imediato, e confirmaram o que já se suspeitava: “Está morto, já não há nada a fazer”. “Coitadinho, se calhar morreu ao frio”. Dizia uma senhora que o tinha visto a pedir na sua rua há dias, num dia de muita chuva, todo molhado. “Quem é ele?” Alguém interrogou. Ninguém o conhecia. Somente um homem quarentão e esguio, pertencente à classe social daqueles que existem mas que é como se não existissem, e que “vivem” mas é como se não vivessem, porque ninguém os conhece, ninguém se lembra deles. Excepto quando é preciso apresentar números para ganhar eleições ou para receber fundos em seu nome para “fins sociais” ou ainda quando dá um certo jeito falar deles. “Conheço”, respondeu. “É o Zé (nome fictício). “Era epiléptico e tomava uns comprimidos. Às vezes também bebia uns copos. Costumava estar no Rossio, no parque de estacionamento de automóveis a pedir”.
Eu, que também fui um dos primeiros a lá chegar fiquei perplexo, sem palavras e envergonhado. À minha frente estava um homem desconhecido dos presentes, sem nome, sem identidade, sem família presente, sem casa, sem vida, não obstante esses direitos estarem consagrados na Constituição da República Portuguesa para todos. Deitado no chão de pedra, sem enxerga, coberto somente por um cobertor e a cabeça sobre um saco de plástico vazio e sujo. Ali, e em tais condições sub-humanas, tinha passado a sua última noite, como excluído do reino dos homens.
Como cidadão fiquei revoltado, mas como cristão fiquei triste e envergonhado. Fiquei revoltado pela (in)justiça social que é praticada no nosso país e pela cultura de morte que é promovida na nossa sociedade, porque se permite matar e permite-se deixar morrer abandonado. Um bom sistema nacional de solidariedade social, não pode permitir que ninguém durma e morra na rua em tais condições.
Fiquei triste e envergonhado. Triste, porque era um irmão que estava ali. “Mas que irmão fui eu”?, pensava emudecido. Parecia que só ouvia a voz da minha consciência a lembrar-me: “Sempre que deixaste de fazer isto a um dos Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que deixaste de fazer. Por isso, afasta-te de Mim…” Senti-me cúmplice daquela morte. Revi-me naqueles que o ignoraram.
Mas também me senti envergo-nhado. Afinal tudo tinha acontecido bem juntinho ao templo onde costumo celebrar a minha fé e a poucos metros da minha residência. “Como é possível, interrogava-me repetidas vezes em silêncio”. O que direi/diremos ao Senhor quando Ele me/nos perguntar: «O que fizeste ao teu irmão // onde está o teu irmão?»”
Tudo falhou. Falharam o Governo e as autoridades locais. Falharam as instituições de acção social. Falaram a sociedade, a família, falhei eu e tu. Nada nem ninguém evitou a morte do Zé!
Até quando vamos passar ao lado dos delinquentes, dos pobres e abandonados? Afinal eles também são pessoas, são cidadãos, são irmãos, se não forem da fé, serão pelos menos da Pátria.
Vamos denunciar casos análogos. Vamos dizer não a estas e a outras injustiças. Chamemos os responsáveis autárquicos, a PSP, a GNR, o Sr. Delegado de saúde, os Bombeiros, o 112 ou as associações de solidariedade social. Enfim, não falta quem diga que ajuda, mas, no momento certo, quando é efectivamente necessário intervir, começa o jogo do ping-pong.
Está na hora de considerarmos o outro, um igual a nós ou um superior a mim. Ou seja, respeitar a sua alteridade e considerá-lo “o meu SENHOR”.
José Carlos A. Costa
