Morreu o meu professor de Geografia

Comunidade Quando nas férias ou numa viagem qualquer visito uma localidade do litoral português não tenho dificuldades em antecipar se vou encontrar costa rochosa ou arenosa. Devo-o ao padre João Paulo da Graça Ramos (falecido no dia 29 de Agosto), que foi professor de Geografia no Seminário de Aveiro, no início da década de 1980.

Desconheço a formação que tinha para poder ensinar Geografia, suponho que era autodidacta, como muitos dos professores do Seminário, num tempo em que a dedicação e o amor aos jovens supriam qualquer deficiência pedagógica quanto à forma mais adequada de ensinar determinado conteúdo. Hoje, ter tido professores que se lançaram a ensinar História, Matemática ou Biologia sem habilitações específicas, como acontecia em muitos seminários menores, é para mim motivo de admiração dos padres em causa. Todos eles foram grandes professores, mesmo que um ou outro insistisse na memorização, o que, aliás, hoje em dia volta a ser valorizado. E é motivo de orgulho, porque as matérias essenciais continuam a fazer parte da cultura pessoal.

O P.e João Paulo ensinou-nos a ler cartas meteorológicas, daquelas que até há pouco apareciam nos boletins do tempo, com as frentes quentes, frias e oclusivas, explicou porque é a amplitude térmica maior no interior do que no litoral, mostrou como a balança de pagamentos era equilibrada graças às remessas dos emigrantes, expôs as vantagens e exigências de Portugal entrar na CEE (como viria a acontecer em 1986), esclareceu que a Ria de Aveiro, tecnicamente, não é uma ria um haff-delta…

Por tudo isto, quando soube da notícia da sua morte, não pensei no colaborador deste jornal, que ele foi, nem no seu papel na introdução de dois importantes movimentos de espiritualidade na Diocese de Aveiro (as Equipas de Nossa Senhora – sobre isso foi entrevistado pelo Correio do Vouga de 23 de Fevereiro de 2005 – e os Cursilhos de Cristandade, ver CV de 22 de Setembro de 2010), nem na dificuldade que sentiu com o clima (o clima mesmo) algarvio quando foi secretário de D. Júlio Tavares Rebimbas, ou na sua ligação a Schoenstatt. Quando me deram a notícia, pensei: “Morreu o meu professor de Geografia”. Poderá ter sido uma faceta menor do seu trabalho. Mas recordando um aspecto secundário desenvolvido com competência, ficará bem patente o grande padre que foi.

Jorge Pires Ferreira, Aveiro