“Não tinha a noção de que escrevia tanto sobre felicidade”, afirma Laurinda Alves, directora da revista Xis (suplemento do Público, ao sábado). “Tento escrever sobre a realidade tal como ela é, só que numa lógica construtiva”, acrescenta. Foi essa “lógica construtiva” à volta de cinco ideias para uma vida mais feliz (Verdade, Proximidade, Fidelidade, Realidade e Saber gerir o tempo) que seduziu o auditório superlotado do Centro Universitário Fé e Cultura, a 4 de Janeiro. Aqui fica o resumo de uma noite de ideia positivas que tão cedo não será esquecida.
Os três Pês
5 ideias são muitas. Devemos antes fazer como com os propósitos de início de ano: poucos, pequenos e possíveis. Se puderem ser 3, que não sejam 5. Se for apenas um, tanto melhor, porque esse único, se for cumprido pode arrastar os outros. Se tivermos muitas ideias e impossíveis de alcançar, não concretizamos nenhuma.
Verdade
Se for verdadeira comigo própria, serei verdadeira com os outros e a verdade espalha-se como as ondas concêntricas de um lago. É muito difícil uma pessoa ser verdadeira consigo própria: Quem sou? Qual o meu papel? Quais os meus sentimentos? O meu papel no mundo é único e não é comparável com nenhum outro.
A verdade sobre o próprio é muito difícil. É mais fácil uma pessoa escapar, passar ao lado, fingir que não sente o que sente. Enquanto pais, professores ou educadores, obviamente temos de ensinar a falar verdade. Mas essa verdade exterior centra-se nesta verdade interior. Quando nós dizemos a nossa verdade, a verdade sobre nós próprios, mesmo que pareçamos um “alien”, as pessoas respeitam. Tem-me acontecido isso como jornalista católica, nos mais diversos ambientes.
Proximidade
A vida é uma vertigem. O tempo voa. Por isso mesmo é importante termos a noção de que a proximidade é um bem escasso, raro, precioso. Não só a proximidade física. A proximidade é um fio condutor da vida.
Apostar na verdade, na proximidade, é ganhar à partida. É um euromilhões experiencialmente ganho. É uma vida de excêntricos de paz interior.
Hoje falta o tempo para estar. Aparentemente é mais fácil por se mandarem sms, mails, se telefonar… Há mais contactos, mas há menos proximidade. Tenho um privilégio enorme de poder organizar o meu tempo de modo a estar com o meu filho. Cultivar a proximidade é coisa para se fazer sempre e não apenas num momento.
Fidelidade
Falo no sentido do compromisso com alguma coisa que nos leve mais longe como pessoas – compromisso social, cívico, familiar, amoroso… É importante ter um compromisso como estrutura de vida, mais do que como propósito. Ser fiel aos princípios, a alguém, a Deus, é uma conquista diária, como um caminho de mil quilómetros que começa com um pequeno passo. Temos todos dificuldades no compromisso. Parece agradável fugir ao compromisso. É uma ilusão de liberdade.
Liberdade
A verdadeira liberdade é a liberdade interior. Não é a ausência de compromissos. Isso é estar desligado. Nós somos relação com os outros.
Silêncio diário
Preciso de um silêncio diário, para juntar o que em mim anda disperso; por isso vou à missa todos os dias, desde há três anos. Preciso daquelas frases que dão sentido ao dia. Sou eu que quero. Ninguém me impôs. É um compromisso comigo própria, que abre outras portas de fidelidade: ao que amamos, àqueles com quem trabalhamos. Estas fidelidades contagiam-se.
O silêncio é regenerador, catárquico, provocador. Quanto mais a vida profissional é agitada, mais necessidade há de silêncio, para poder responder a todas as solicitações. O silêncio é vital. Daí que eu sinta a necessidade, por exemplo, de fazer retiros de silêncio.
Ajuda-me a viver, a recuperar, a enfrentar dificuldades familiares, a fazer caminho. O silêncio é de in-trospecção mas é muito mais de relação.
Se há quinze anos me dissessem que eu precisava de silêncio, eu pensava que estavam doidos. A vida vai-se desenhando e leva-nos por caminhos que não sonhámos.
Bem e mal
O bem e o mal são igualmente contagiantes. A diferença é que o bem é infinitamente mais luminoso.
Realidade
Ser realista. Olhar a realidade como ela é, sem pretender pintá-la, dourá-la ou pô-la cor-de-rosa ou mais negra. Não é verdade que esteja tudo mal, cada vez pior. Sempre houve e haverá pessoas péssimas e pessoas óptimas; catástrofes; pessoas que se dedicam a fazer o mal e outras a fazer o bem. Gerações perdidas não existem. Existem gerações com pessoas mais perdidas e pessoas encontradas.
Pessimismo e optimismo
O filho pessimista olha para o relógio caro que o pai lhe deu e só vê problemas: roubo, acidente, vidro partido e cravado na pele, hospital… O optimista olha para a ferradura e diz que o pai lhe deu um cavalo. A ferradura já chegou; a seguir vem o cavalo.
É preciso ser optimista, mas no sentido realista. Não é ser tipo “contentinho da vida”. Por vezes, tudo à nossa volta nos leva a ficar “down”. É o 11 de Setembro, a pedofilia, Entre-os-Rios, o “Katrina”, o sofrimento de amigos. É muito difícil sobreviver ao pessimismo. Mas é possível e desejável. É preciso olhar para o lado bom da vida. Alguns, para isso, usam um recado no bolso, um post-it mental, o silêncio, a lembrança de um amigo…
Poder dos Media
Os telejornais insistem no lado negativo. Ficamos com um olhar bovino, passivo, a olhar para as notícias. Esse poder e fascínio são usados de forma descalibrada. A lógica das notícias continua a ser “as boas notícias não são notícia”. É perversa, mas é a que vigora. Mas há pessoas extraordinárias à nossa volta. Pessoas para quem tudo podia ser motivo de infelicidade, amargura, revolta interior, mas que vivem com um sorriso enorme. Há pessoas que fazem da adversidade exemplos luminosos.
É melhor perguntar “para quê?”
É tempo desperdiçado pergun-tar pelos “porquês” da vida, do sofrimento, as perplexidades… Nunca teremos resposta. Mas podemos perguntar pelo “para quê”. “Onde é que isto me pode levar?” “O que me quer dizer Deus com isto?” “Para onde é que a vida me leva?”
Gerir o tempo
No trabalho, quanto mais se faz, mais há para fazer. O tempo para o essencial não sobra. Mas tem de ser gerido a nosso favor. Às vezes, temos de saber dizer que não; temos que arranjar meia hora só para nós, desligar o telefone, não estar para ninguém.
É importante encontrar um tempo para si, seja ele qual for, onde for. É importante ter tempo para nós para podermos ser para os outros.
Empresas responsáveis
Há empresas que reconhecem a necessidade de os seus funcionários terem mais tempo para a família e praticam a política das luzes apagadas a partir de certa hora, ou então surge no computador a mensagem “go home” (“vá para casa”), ou não permitem que se marquem reuniões de trabalho a partir das 17h.
Minoria e maioria
Somos uma minoria, mas as minorias é que fazem mudar o mundo. As maiorias deslocam-se em massa. São acríticas e acéfalas. Apoiam coisas inenarráveis. As minorias que acreditam na ética ou no ser humano é que mudam a história. Às vezes, é preciso ser excessivo, como o Lech Walesa ou o Bob Gelodof. É preciso desiquilibrar o equilíbrio. O equilíbrio pode confundir-se com as águas paradas, com a paz podre.
Escolhas
“Não são as tuas qualidades que te definem, mas as tuas escolhas” (frase de um dos livros do Harry Potter).
O Fórum::Universal acontece na primeira quarta-feira de cada mês, no CUFC, e pretende ser um espaço de partilha e debate, com um convidado, sobre uma questão da actualidade. A próxima sessão é no dia 1 de Fevereiro.
