Muito obrigado!

A Árvore de Zaqueu Quem não gosta de o ouvir? Às vezes por um simples gesto de cedência de passagem; outras vezes pelo mero ar prazenteiro com que desempenhamos a nossa profissão; ou pela delicadeza de escutar um desabafo passageiro.

Não há bela sem senão – e também pode ser dito com um sentido de despeito, desilusão, ou mesmo certa raiva por alguma coisa que nos foi feita e que fere os nossos interesses.

Não admira que seja mais bonito, mais «elegante» e gracioso, usar o tipicamente português «bem haja»! («elegante» provém do radical indo-europeu leg, cujo sentido geral é «escolher»). O valor desta expressão é passar por cima do demasiado comum sentimento de retribuição e interesse nas relações humanas, apelando para o bem que está sempre a estimular os nossos melhores desejos, levando-nos de facto a querer o melhor bem para cada um de nós.

Não fará tanto sentido dizer a Deus «bem haja!» (embora possa revelar uma profunda relação de intimidade). Por outro lado, não é verdade que muitas vezes apetece resmungar a Deus «ora muito obrigado…»?

No livro de Job, conta a Sagrada Escritura como a vida lhe corria bem – ele era exemplo de gratidão a Deus, e os amigos enchiam-lhe a casa de alegria. O mau, foi quando a adversidade bateu à porta! Até parece que o próprio Deus só se lembra de nós para nos fazer sofrer! Pois foi o que Job experimentou, e tinha razão para se queixar amargamente a Deus: «Ai é assim que amas os teus amigos?» E confessava que não conseguia compreender a Deus.

Quem, aliás, O pode compreender? Em toda a Bíblia transparece a ideia de que os seus caminhos são misteriosos, e a sabedoria popular lembra que Deus não escreve ao nosso jeito…

Mas não é de Job que nos falam as leituras. Na primeira, um general pagão é curado da lepra; no evangelho, dez leprosos são curados (judeus e pagãos unidos na desgraça…). Muito teimou o general pagão para que o profeta Eliseu aceitasse um «obrigado» junto a boa retribuição! Mas Eliseu lembrou como era mais sábio um «bem haja» para os dois e para todos os vindouros – e construíram um local de homenagem ao Supremo Bem, um lugar onde os seres humanos sentissem o bem do encontro com Deus.

No evangelho, Jesus conta que só um samaritano (um povo que os Judeus consideravam como meio pagão) é que veio agradecer. E como Jesus gostou!

É notável este fraquinho de Jesus por estrangeiros, prostitutas, pobres, doentes… os «marginais» relativamente «aos certinhos da sociedade». Uns e outros sê-lo-ão por culpa própria ou não, mas o certo é que alguns «certinhos» se colocam facilmente no pedestal dos «justos» – e vivem da fama do lugar a que chegaram, muitas vezes sem procurar impedir as injustiças que tornam a vida insuportável, sobretudo quando desprezada. Muita gente se desculpa dizendo que o sofrimento dos outros não passa de fatalidade. Quando soubermos falar uns com os outros, esquecendo o pedestal do moralmente ou politicamente correcto, a simpatia da palavra que nos une gera condições para eficazes medidas de justiça.

Jesus não se pôs em pedestal nenhum – as «tentações no deserto» simbolizam a escolha do seu estilo de vida. Mas nove leprosos contentaram-se com o pedestal de curados milagrosamente. Só o samaritano viu em Jesus alguém com quem se pode e é bom falar. Só para ele é que se deu o começo de uma vida nova. Doravante, saberá ajudar os outros com a sua experiência de sofrimento, mais preparado para lutar contra a raiz do desânimo.

«Obrigado» significa estar «ligado» (ob+ligare) especialmente com uma pessoa, devido a algo de bom que essa pessoa nos proporcionou. Mais força tem a palavra «religião», que significa estar «ligado» (re+ligare) de maneira muito especial a alguém muito especial. Só o samaritano teve uma atitude profundamente religiosa.

S. Francisco dava glória a Deus por todas as «belezas pequeninas» deste mundo, mas também pela «irmã dor» e pela «irmã morte». Foi por isso que falei de Job, que tal como o general sírio e os dez leprosos, tinha a experiência da dor acompanhada da exclusão social. No grito «tem compaixão de nós», podemos ver mais do que um pedido de cura: mais radicalmente, será um pedido de sentido para a vida.

Embora curando apenas alguns males, Jesus Cristo mostrou que a felicidade é para ser sentida tanto fisica como espiritualmente. E que somos responsáveis por utilizar toda a nossa ciência e toda a arte das relações humanas.

Nos encontros bons ou maus, ganhamos força para um mundo sempre mais perfeito, quando nos lembramos da riqueza presente no mais simples MUITO OBRIGADO!

Manuel Alte da Veiga