Depois do êxito do Ciclo do Milho, as associações recriam as actividades do linho. Começa no dia 25 de março.
Depois do sucesso da recriação do ciclo do milho, em 2011, a Murtosa vai ser palco da recriação do ciclo do linho, numa iniciativa do Rancho Folclórico “Os Camponeses da Beira-Ria”, do Rancho Folclórico “As Andorinhas de S. Silvestre”, da Confraria Gastronómica “O Moliceiro”, da Associação Desportiva e Recreativa das Quintas e do Núcleo da Murtosa da Fraternidade de Nuno Álvares.
O calendário das ações foi planeado de modo que cada momento da recriação tenha correspondência efetiva com os tempos reais do Ciclo do Linho, tal como era praticado nas primeiras décadas do século passado. O primeiro desses momentos ocorrerá já no dia 25 de março, a partir das 15h, na Casa-Museu Custódio Prato, no Bunheiro, com o lavrar e gradar do terreno, com vacas de raça marinhoa, seguida do semear do linho “a lanço” por intervenientes vestidos com trajes da primeira metade do século passado. Haverá, igualmente, animação com cantares tradicionais, bem como a possibilidade de visitar a Casa-Museu.
Em Junho será o momento de arrancar, ripar e remolhar o linho, culminando o ciclo com a recriação, em Setembro, do secar, amassar, espadelar, assedar, fiar, barrelar, urdir e tecer do linho.
O Ciclo do Linho, pelas suas características, apresenta-se, no dizer dos organizadores do evento, “como uma oportunidade para reviver, em várias etapas ao longo do ano, uma cultura outrora marcante, que urge resgatar da memória, para conhecimento das gerações que nunca viram os momentos sucessivos da transformação de uma planta em tecido”.
As coletividades organizadoras têm a pretensão de registar em fotografia e vídeo, as atividades de cada um dos momentos do Ciclo do Linho, com vista à produção de um livro e de um documentário, que guarde, para memória futura, a recriação. Cada uma das associações terá a seu cargo um aspeto específico do programa, resultando dai um forte envolvimento de cada uma delas.
Cultura do linho quase
desapareceu da Murtosa
A cultura do linho assumiu, até à década de 30 do século XX, uma grande relevância, na medida em que, dos materiais naturais usados para a confeção de vestuário, só o linho era endógeno da região. Nem a lã nem o algodão eram produzidos na Murtosa. O linho era a matéria-prima mais barata e mais disponível localmente.
Para além de constituir um valioso recurso, cuja utilização ia do vestuário à medicina e culinária, a cultura do linho ocupava um lugar de destaque na vida social e cultural da comunidade, tanto mais que a sua produção estava rodeada de ritos e lendas, que ainda hoje fazem parte da memória coletiva das gentes murtoseiras.
Na Murtosa, a memória do linho encontra-se um pouco por toda a parte, das arcas de roupa das avós até à toponímia, de que é exemplo o “Caminho das Remolhas”, no Bunheiro, que evoca um dos locais onde se remolhava o linho, uma das muitas etapas do ciclo do linho.
Com a recriação do Ciclo do Linho, pretende-se reavivar, na memória coletiva, uma atividade hoje praticamente desconhecida dos mais jovens, dando a conhecer os processos tradicionais da cultura do linho, desde a sua plantação até à tecelagem.
Custódio José da Silva Sousa (Prato) (1889-1985), que foi um lavrador rico, legou grande parte das suas propriedades à Paróquia do Bunheiro, entre as quais se incluía a sua casa, situada no lugar de Passadouros, expressando a vontade de um dia esta ser transforma numa “espécie de museu”, que retratasse a vida social e agrícola da freguesia, o que se veio a concretizar em maio de 1996, quando abriu a “Casa Museu Custódio Prato”, para a qual contribuiu o trabalho desenvolvido pelo Rancho Folclórico “Os Camponeses da Beira-Ria”.
