Museu que Aveiro recusou vai ser entregue à Fundação Mário Soares

A Fundação Mário Soares adquiriu o conjunto de objectos e imagens da Primeira República que esteve em Aveiro até 2006, sem nunca ter sido exposto como tinha sido acordado com o doador

A Fundação Mário Soares vai assinar amanhã (30 de Outubro), em Lisboa, com António Pedro Vicente, um protocolo de recepção do espólio que chegou a ser doado à Câmara Municipal de Aveiro (CMA) para constituir o Museu da República / Arlindo Vicente.

O caso remonta a 1993, quando António Pedro Vicente, professor catedrático de História da Universidade Nova (Lisboa), especialista no regime iniciado a 5 de Outubro de 1910, quis entregar a Aveiro um conjunto de peças sobre os fins da monarquia e a Primeira República (1910-1926). O historiador é filho de Arlindo Vicente (1906-1977), advogado e pintor nascido no Troviscal (Oliveira do Bairro), que foi designado candidato à presidência da República em 1958, mas desistiu em favor de Humberto Delgado.

António Pedro Vicente queria com a oferta gratuita da colecção homenagear a figura do seu pai, que foi advogado de oposicionistas ao Estado Novo e esteve vários meses preso, acusado – sem provas – de actos subversivos. “A cidade de Aveiro não tem nem uma pedra da calçada com o nome do meu pai. A única condição que eu punha na oferta que fiz à cidade era que desse o nome do meu pai a esse museu”, afirma.

Aveiro aceitou o espólio, ainda no tempo de Girão Pereira, e gastou alguns milhares de euros na conservação das peças, durante os executivos de Alberto Souto de Miranda, mas nada fez quanto ao que estava protocolado. Passados 13 anos, em 2006, já com Élio Maia, a CMA devolveu o espólio, “de forma a não defraudar as expectativas”, alegando “falta de condições financeiras para manter a colecção”, como se pode ler no contrato de resolução (de 21 de Setembro de 2006).

António Pedro Vicente, ao Correio do Vouga, mostrou-se “magoadíssimo” ao recordar o processo e considera que a Câmara de Aveiro “perdeu uma grande oportunidade de ter um museu temático”, “único no país”, tanto mais que se aproximam os 100 anos da implantação da República. O historiador compreende as restrições financeiras da Câmara, mas lamenta a falta de visão dos responsáveis dos vários executivos, tanto mais que já havia o consentimento do Estado para que a biblioteca pessoal de Carlos Ferrão, jornalista, integrasse o Museu da República. Também a família de Raul Rego, director do diário “República”, havia concordado em doar objectos deste opositor ao regime e destacado maçon.

Milhares de objectos

O espólio que agora vai ser entregue à Fundação Mário Soares, reunido ao longo de décadas por António Pedro Vicente, é constituído por uns milhares de objectos com imagens relativas à República, desde cartazes (alguns são das primeiras revoltas antimonárquicas, ainda no séc. XIX), postais (mais de 600), lápis, cinzeiros, pratos, duas dezenas de “bustos da República”, até caixas de bolachas e lenços de seda com imagens republicanas. O inventário ocupa 30 páginas. “Aveiro perdeu milhões”, afirma Pedro Vicente, referindo-se à possível rentabilização.

Solicitado a comentar a entrega do espólio à Fundação Mário Soares, o vereador da Cultura da CMA disse que “o município não estava em condições de assegurar o que era exigido”. “Em vez de adiarmos o problema, decidimos devolver o espólio. Se agora me diz que vai integrar a Fundação Mário Soares, é motivo para ficarmos satisfeitos. O que interessa é que não saia do país”, afirmou Capão Filipe.

O vereador sublinhou, por outro lado, a vantagem da transformação do edifício destinado ao Museu da República (na Rua João Mendonça) em Museu da Cidade. “O espaço que estava empatado, sem solução à vista, foi requalificado em museu de cidade, para que possamos fruir a nossa cidade”, afirmou.

A compra da colecção iconográfica por parte da Fundação Mário Soares (por uma “quantia simbólica”, mas não divulgada) conclui o “caso único e surrealista”, nas palavras de António Pedro Vicente, que foi a recusa da cidade dos canais. No início, a dádiva (gratuita) era apenas “um acto de honra” em memória de Arlindo Vicente.

Aveiro poderia ter ficado com a melhor colecção de imagens relativas à Primeira República.