Paulo Stapel, 66 anos, padre diocesano alemão, é o responsável pela Fazenda da Esperança na Europa, África e Ásia. Fala português porque viveu 15 anos no Brasil, onde o seu irmão gémeo, Fr. Hans, padre franciscano, fundou e dirige a Fazenda da Esperança.
O que é a Fazenda da Esperança? É uma comunidade religiosa que acolhe e trata toxicodependentes. Está em crescimento explosivo, pois desde 1983 surgiram 40 comunidades deste género no Brasil, mais outras tantas no resto do mundo. No dia 6 de maio, na freguesia de Maçal do Chão (concelho de Celorico da Beira), será inaugurada a primeira Fazenda da Esperança em Portugal.
A comunidade chegou a Portugal por meio da irmã dominicana Maria Alice, que, na Casa das Dominicanas de Aveiro, proporcionou o encontro do P.e Paulo Stapel com o Correio do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – O P.e Paulo Stapel acompanha desde o início este movimento, esta comunidade da Fazenda da Esperança. O seu irmão, Fr. Hans, criou a primeira, em Guaratinguetá, diocese da Aparecida, e o sr. acompanhou a segunda, em Coroatá, estado do Maranhão, até regressar à Alemanha, passados 15 anos. Como é que tudo surgiu? Qual foi a ideia incial?
PAULO STAPEL – O meu irmão nunca teve uma ideia. Simplesmente, achamos que o Evangelho não é só para ser lido, meditado e estudado. É para ser vivido no dia a dia, momento a momento. Isso teve uma consequência. Quando chega um jovem com problemas de droga, não podemos dizer: “Desculpe, mas você não pode entrar. Tenho medo de você. Vou por outro caminho”. Não. Dentro dele vive Jesus. Você ama-o e isso tem consequências. Ele sente isso e começa a melhorar. Abrimos a porta, chega um, a seguir aparece outro e com um pequeno grupo começamos a viver juntos o Evangelho.
Quer dizer que nunca pensaram em fazer uma obra…
O meu irmão era pároco. Costumava ver um grupo de jovens, drogados, na esquina. Tinha receio e passava por outro caminho. Depois percebeu que o amor é para todos e foi falar com eles, até que um deles pediu: “Ajude-me. Preciso de pessoas que estejam 24 horas comigo”. O meu irmão convidou para a igreja este grupo, que partilhava a sua experiência, e foi assim que apareceu o primeiro grupo em 1983.
Hoje, são oitenta as comunidades, e haverá inaugurações nos próximos meses na Alemanha, Suíça e Portugal. A que se deve o sucesso?
Sem dúvida que Deus tinha um plano, mas não o conhecíamos. A nossa vontade é de amar a todos. Vai crescendo, sempre chegando mais jovens, e alguns querem ficar para sempre como o primeiro, Nelson. Depois a Igreja viu que sempre tínhamos uma boa relação com os bispos, pelo que o cardeal Lorscheider disse em Aparecida ao meu irmão: “Aqui nasceu uma coisa de Deus. Você tem de fazer uns estatutos para que este grupo continue a existir quando você já não viver. Você é responsável por isso”. O meu irmão apanhou um choque, nunca tinha pensado nisso. Levou a questão ao capítulo [reunião dos franciscanos] e o superior disse-lhe: “Aqui está, como Francisco de Assis abraça o leproso, você abraça leprosos de hoje. Nós libertamos você para este trabalho com mais dois outros padres. Você viva com o seu próprio trabalho, porque não temos nem dinheiro nem mais padres para dar”.
Criaram então os estatutos, que foram aprovados pelo cardeal Lorscheider, na arquidiocese de Aparecida. Quando a Fazenda se expandiu para o mundo inteiro, fez-se um pedido a Roma. No ano passado, em 24 de maio, Roma aprovou a Fazenda como um novo carisma da Igreja. Somos uma comunidade de padres, consagrados, irmãs e leigos reconhecida pelo Conselho Pontifício para os Leigos.
A Fazenda, contudo, está aberta a todas as pessoas…
Graças a Deus, não existe uma droga católica, luterana ou ortodoxa. A droga une todo o mundo. Na Fazenda temos de tudo: muçulmanos, ortodoxos, judeus, luteranos, católicos. E vivem juntos com amor, centrados no amor recíproco dos Evangelhos. Quando vivemos o Evangelho, Ele, como prometeu, está no meio de nós. Quem curou as pessoas, no tempo de Jesus, foi Jesus. Quando Ele está no meio de nós, continua a curar do mesmo modo. Conhece cada um, sabe do problema de cada um. Ele cura. A nossa única missão é viver o amor recíproco para Ele estar connosco.
Surgem vocações nos ex-toxicodependentes?
Muitos daqueles que estavam na droga acabam por ter algo novo, descobrem a vivência da Palavra. “Eu sou amado e posso amar”. Têm o desejo de viver na radicalidade. Há vários que estiveram na droga e na cadeia e hoje consagram a vida a Deus como celibatários. Em 2007, Bento XVI visitou a nossa casa-mãe e disse aos jovens marginalizados que eles eram embaixadores da esperança, responsáveis por levar a esperança ao mundo que não tem esperança nem perspetivas. É possível ser diferente. Quando se conhece Deus, a vida transforma-se.
Sendo a droga algo tão complicado, de difícil solução, a Fazenda tem com certeza uma estrutura pesada de técnicos, psicólogos, médicos…
A nossa experiência é diferente. Se alguém precisa de auxílio, levamos ao médico. É como na minha família. Nunca tivemos um médico na família. Quando um filho está doente, a mãe leva-o ao médico ou chama o médico a casa. O mesmo acontece na Fazenda. Os problemas resolvem-se em família. A maior parte não precisa de médicos nem de psicólogo. É interessante que por baixo da droga está um grito de amor. Muitos deles não foram amados, os pais estão separados, as famílias destroçadas. Quando se sentem amados, quando se sentem bem na família, recuperam tudo. Vive-se o amor do Evangelho e quem é curado torna-se ele próprio evangelizador. A todas as Fazendas chega uma multidão de gente porque sente “aqui tenho uma coisa nova”. Por outro lado, quando um jovem vai a um lugar e conta como recuperou, como vive em pobreza, obediência e castidade, isso é um sinal muito muito forte e toca no coração das pessoas.
Em que se baseia a metodologia da Fazenda?
Temos três colunas. Primeiro, o trabalho – os membros da comunidade trabalham e produzem várias coisas. Isto devolve o amor próprio. Sabem que podem fazer algo valioso. Segundo, a vivência em comunidade. As casas são mistas. As pessoas aprendem a respeitar e conviver com o outro. Muitos não tiveram isto na família. Ali aprende-se a entrar em diálogo, a respeitar. A terceira coluna é a espiritualidade, a vivência do Evangelho. Em cada dia, logo de manhã, lemos o Evangelho e procuramos uma palavra que dê o sentido ao dia.
Em largos traços, como é o ritmo diário de uma comunidade?
Acordamos às seis da manhã. Temos o pequeno almoço e depois a oração – oração do terço, leitura do Evangelho e a meditação em que escolhemos uma palavra para ser vivida durante esse dia. Às oito horas dividimos os trabalhos: cozinha, limpar a casa, produzir as coisas, trabalhar na horta, cuidar dos animais… Nunca se trabalha sozinho. Sempre dois a dois. Temos o almoço ao meio-dia e a seguir uma pausa. Depois voltamos ao trabalho até às cinco da tarde. A parte da noite é sempre variada. Às vezes temos Missa, outras vezes temos partilha de experiências, adoração do Santíssimo, etc. E há sempre espaço para o desporto e a conversa.
Na casa que vão inaugurar no 6 de maio, quantas pessoas vão viver?
Antes da inauguração, vamos ter uma missão. Membros da Fazenda da Esperança vão às igrejas, às escolas, aos meios de comunicação social. O mês da missão é para começarem a trabalhar juntos, para criar o clima da Fazenda. O grupo da missão é constituído por 15 pessoas. Depois da missão, ficam três ou quatro na casa. E depois, chega um ou outro, nunca sabemos quantos vão chegar.
Qual é a capacidade da casa de Maçal do Chão?
Para 18 pessoas. Na Alemanha, perto de Colónia, uma casa tem 17 pessoas de nove nacionalidades. Pessoas que tinham problemas de droga e álcool e agora vivem em paz. Isso é um autêntico milagre que só Deus pode fazer. Celebramos a missa num antigo convento franciscano. No início apenas apareciam alguns velhinhos, como é normal. Agora a missa está cheia de jovens e há grupos de preparação para o Crisma.
Em termos de espiritualidade, quais são as raízes da Fazenda?
Vivemos a espiritualidade franciscana e temos um bom contacto com a espiritualidade da unidade dos Focolares de Chiara Lubich. A estas duas colunas acrescentamos a esperança do Evangelho. Vivemos a pobreza, a obediência, o amor recíproco, a humildade, a unidade. Aprendemos com os nossos pais Chiara e Francisco.
Como se sustentam economicamente?
Vivemos do trabalho. É muito importante para os jovens que cada um viva com o seu próprio. Isso dá dignidade. Para construir a casa portuguesa, confiamos na Providência. É outro capítulo, outro milagre como conseguimos tudo isso. Eu não conheço ninguém, mas chego lá e vejo a casa num meio de um povo simples e pobre. Custou 191 mil euros. Eles [várias aldeias nas imediações de Maçal do Chão, como acrescenta a Ir. Maria Aice] cantaram as janeiras, fizeram magustos, organizaram atividades…
Sabendo que sair da droga é tão difícil, como ultrapassam fases complicadas como a da ressaca?
É uma fase difícil, sem dúvida. Como temos pessoas que já passaram pela mesma experiência, elas ajudam muito, acompanham, fazem o chá, levam a comida, cuidam como se fossem da família. Há muita dor, vómitos, tonturas. É um tempo difícil em que mais se pode amar essas pessoas.
Na Fazenda não há drogas, cigarros, álcool. A única coisa importante é eles quererem. Tiramos tudo: televisão, computador, telemóvel. Fica um vazio, sem dúvida, que há de ser enchido com Deus. A cura implica um novo estilo de vida para se viver feliz aqui na terra sem droga. Quando aprendem isto, são capazes de continuar.
Desde o momento em alguém entra na Fazenda até ficar curada, quanto tempo leva?
Um ano. O período de recuperação, processo em que a pessoa ganha uma vida nova, dura um ano.
No final…
No final, pode sair. Tem de sair. Passa um tempo fora. Depois há a possibilidade de voltar para a Fazenda, integrando uma escola missionária, com um acompanhamento vocacional para fazer parte da comunidade. Muitos vão trabalhar, voltam a estudar. Esse é o objetivo da fazenda: reinserir na sociedade. Os grupos de ex-toxicodependentes encontram-se uma ou duas vezes por anos. Vivem o estilo da Fazenda, mas fora, no mundo.
Também há casos de insucesso…
Os primeiros três meses são críticos. Depois de passarem um ano connosco, voltam para fora. 80 por cento fica firme; 20 por cento cai novamente na droga e alguns deles têm coragem de voltar para a Fazenda. Normalmente mantemos contactos com os ex-toxicodependentes. São poucos os que não querem mais contato. Quando alguém cai, há sempre alguém que para ajudar e isso é muito bonito.
O sr. padre tem um anel de tucum (anel madeira preta da Amazónia). Significa uma opção pelos pobres?
Sim, opção pelos pobres. É também símbolo do acolhimento do pai ao filho pródigo. O pai abraça o filho e dá-lhe roupa nova e um anel. Significa: “Você agora é meu filho de novo”. Quando o Papa foi à Fazenda, deu um anel para os meninos da rua. “Agora vocês estão de novo em casa”.
Fala com entusiasmo da Fazenda. Sente-a como obra sua?
Num quadro bonito, o pincel fica de lado. É o artista que faz, não o pincel. O pincel está na mão do artista. Não faz parte da pintura. Somos o pincel na mão de Deus. Acho isso bonito e diz tudo.
