Educar… Hoje Ringue cor de petróleo
Estranhei o Mário estar tão transpirado. O que aconteceu? Esteve a jogar futebol. Estranhei que o Mário conseguisse aproveitar os cinco minutos de intervalo para uma futebolada.
Recordei o meu ringue cor de petróleo, que não resistiu ao nosso grito de “FERIADOOOOOO!”, e que se agitou nas mãos da professora de História, que o confiscara dois minutos antes de entrar na sua sala de aula, quando ele andava a circular pelo corredor, num jogo improvisado. A professora restituiu-nos o ringue. Não deu “feriado” aos seus alunos, mas deu-nos a nós, seus alunos daí a 60 minutos, a alegria de jogarmos ao ringue nos pátios da escola secundária, que frequentávamos entusiasmados, há pouco mais de um mês!
Passados 28 anos (!), observei a alegria que, a medo, os alunos sentiram, quando ninguém substituiu os professores em greve. Estranhei a ausência do “grito do Ipiranga”: “FERIADOOOOOOO!” já não faz parte da gíria destes alunos. Já não há ringues cor de petróleo, mas as bolas ainda circulam nas escolas, distraidamente nalguns corredores, ajuizadamente no canto de uma sala de aula, freneticamente nos intervalos. Porque “feriados” não há. E a ocupação de todos os tempos escolares (que antigamente redundava nos tais “feriados”), hoje, incorrectamente apelidada de “aulas de substituição”, pode ser aproveitada para jogar, sim. Mas só no computador e no telemóvel. Não para jogar à bola. Se um aluno se aleijar, de quem é a responsabilidade, se não estão na aula de Educação Física? Se um aluno entrar em sites menos apropriados, se estabelecer conversas indecorosas com parceiros desconhecidos na internet, de quem é a responsabilidade?
O telemóvel de Isabel
Chamei-lhe a atenção em duas aulas, noutras tantas fingi que não vi. À terceira disparei, calmamente irritada – O que tens nos joelhos? – Nada. Mas os movimentos manuais de quem estava a escrever uma mensagem no telemóvel e, sobretudo, a expressão facial de quem foi apanhada em flagrante não deixaram dúvidas. Continuei: – Não é a primeira nem a segunda vez que te digo que não podes estar com o telemóvel [entenda-se: “mandar e receber mensagens”], fora as vezes em que fiz de conta que não vi! Para a próxima, chamo o teu Encarregado de Educação.
O telemóvel deve ter entrado sorrateiramente no saco. Nunca mais o vi, ou pressenti, até ao dia seguinte, às 8h30. Isabel entrou na sala, com a pronta informação de que o ia guardar. Guardou.
Em caso de reincidência, o EE será chamado, perderá umas horas de trabalho, para saber que Isabel usa e abusa do telemóvel, que ocupa as aulas com mensagens (o EE sabe-o, porque deve ser ele quem lhe paga a conta do telemóvel). À primeira vista, esta conversa será uma perda de tempo. Vista pelo lado positivo: o EE vai à escola e fica a conhecer a Directora de Turma, tentarão encontrar formas de combater o desinteresse de Isabel, mostrará à escola, e sobretudo a Isabel, que se preocupa com ela. E se o EE não comparecer? Isabel tem 16 anos e ainda está no nono ano!
Teoria e prática
Teoricamente, as ideias são boas: os alunos não podem ficar sem aulas, mesmo que os professores faltem. Todavia, na prática, ter um “feriado” é o momento privilegiado para uma futebolada, para pôr as conversas em dia, para passear nos jardins da escola, para descansar. Que bom seria se os alunos pudessem, uma vez por outra, gastar as energias no futebol, nas suas conversas, quando um professor falta, de longe a longe! Depois, talvez se concentrassem e estudassem com mais gosto! E dar aulas é bom, sobretudo quando os alunos querem aprender.
