Catequeses quaresmais 2007 D. António Marcelino reflectiu sobre família e santidade, na última catequese quaresmal de 2007.
Santidade acessível. «Há uns anos, se perguntasse a um jovem, “tu queres ser santo?”, ele respondia: “Santo?! Não!”» Este breve caso partilhado por D. António Marcelino ilustra um certo modo de pensar dos católicos: a santidade é algo inalcançável; é para um grupo de privilegiados, não para pessoas comuns. Mas talvez esta mentalidade esteja a ser ultrapassada. No dia em que passavam dois anos sobre a morte de João Paulo II, D. António referiu, de passagem, a acção deste Papa para generalizar a santidade – ao ponto de receber críticas: “Então agora todos podem ser santos!” – e principalmente a doutrina do Segundo Concílio do Vaticano.
“O Concílio pôs acessível a todos a santidade. Disse-nos que a santidade deve ser o processo mais normal da vida cristã. Todos temos capacidade de ser santos pelo baptismo”, disse D. António Marcelino. E recordou as palavras do Concílio: “Todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia, quer por ela seja pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo; ‘Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’ (1 Ts 4,3) (…) É, pois, claro que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, essa santidade promove um modo de vida mais humano” (Lumen Gentium, 39 e 40).
Séculos sombrios. Assim, não há espaço para dúvidas num ponto: a família é espaço de santidade. No entanto, recorda, “não foi sempre este o apelo feito na Igreja em relação aos esposos, pois, em alguns séculos mais sombrios, uma espiritualidade, comandada e inspirada por religiosos e monges, leva a pensar que o matrimónio significava um estado de vida nada apto à santidade e menos propício à salvação pessoal. O estado de perfeição era exclusivo dos consagrados. Era bom e aconselhável que os esposos, à medida que iam envelhecendo, e arrumados já os filhos, se fossem afastando um do outro e dedicando mais a Deus…” “Não é esta a doutrina evangélica e o Concílio assim veio recordá-lo”, conclui D. António.
Sacramento permanente. “Santidade e vida familiar não são ideais incompatíveis. Aliás, a vida de casal é a que exprime mais visivelmente o amor de Jesus Cristo pela Igreja, conforme nos diz São Paulo na Carta aos Efésios”, afirma. Assim, “para os esposos, tudo quanto os une e expressa a sua união conjugal (palavras, gestos, atitudes, perdão pedido e oferecido, vida íntima…), também santifica, porque na união e no esforço para a fazer e defender se expressa, a cada hora, a graça própria do matrimónio e da família, porque o Matrimónio é um sacramento permanente”. Por isso, é mais espaço de santificação o lar do que o edifício da igreja. “A igreja não é lugar de santificação. Mas é espaço para receberem força os que querem santificar-se”. “A mãe que falta à Missa para cuidar dos filhos ou descascar batatas está a santificar-se”. Afirmações de D. António Marcelino.
Programa de vida. Para concluir, escreve D. António na folha que distribui aos participantes: “O casal responde diariamente à vocação à santidade, procurando crescer cada dia em amor a Deus e à sua vontade, em amor mútuo, traduzido em atitudes e obras, em amor aos outros expresso em caridade e partilha fraterna, em testemunho de vida conjugal e familiar, em compromisso apostólico dentro da comunidade cristã e nas tarefas sociais (…). Isto exige um programa de vida a que se é fiel”.
