A Árvore de Zaqueu Se a gente pegar nos quatro Evangelhos e nos Actos dos Apóstolos, facilmente organiza um roteiro de milagres. A ideia mais tradicional é a de que uma pessoa excepcionalmente boa e amiga de Deus espalha à sua volta a aragem benfazeja de uma nova ordem das coisas, como se fosse o começo da «idade de oiro», já tão badalada nas grandes civilizações da antiguidade.
«Milagre» outra coisa não significa senão «maravilha». O traço característico não é uma intervenção dita sobrenatural mas sim o chamar de atenção.
Se Jesus Cristo tivesse dado os cinco pães e os dois peixes de que fala o evangelho, teria, quando muito, matado a fome a umas três pessoas! Mas o evangelista sublinha uma arte já bem manifesta pelo profeta Eliseu (1.ª leitura): a arte de multiplicar o que é bom.
A história da humanidade é centralmente uma multiplicação, bem a par da espantosa (“milagrosa”) expansão do universo. Sim, também se multiplicam coisas más, e de tal modo que o dilúvio bíblico parece uma tentativa de Deus para reduzir a zero a tabuada humana – de tal modo se tinha multiplicado a iniquidade. Mas, lá está, até ao fazer o mal, o ser humano mostra a tendência profunda para o bem – e Deus deu-nos de novo, na figura de Noé, o poder de multiplicar tudo o que é vida.
Assim foi que a vida de um par tão ingénuo como Adão e Eva (nem sabiam que estavam nus…) se multiplicou em milhões de milhões; com Eliseu (2.º Livro dos Reis 4), uma medida de azeite multiplica-se por todas as vasilhas do armazém da viúva sua amiga, e os 20 pães de um homem bom alimentam mais de cem pessoas; assim a água se transforma em vinho (João 2); assim a fímbria de uma túnica liberta poder (Marcos 5,28); deste modo, um vulgar «filho de carpinteiro» começa uma “nova ordem” no mundo, e o rude S. Pedro e seus seguidores ajudam na “multiplicação” da paz e justiça com que sonhamos…
(Eliseu quis ressuscitar um menino colocando sobre ele o seu cajado. Mas foi preciso que o próprio Eliseu aquecesse com o seu corpo o corpo do menino. A melhor técnica para prolongar a vida, aliviar o sofrimento ou consolidar o bem-estar – acaba por ser estéril, sem o cuidado pessoal e uma vontade genuína de multiplicar o bem).
A ideia central é a de que com o pouco se faz muito – também o famigerado “reino de Deus” se multiplica como o pequenino grão de mostarda, vindo a transformar-se numa árvore frondosa (Marcos 4,30).
E não é verdade que um simples sorriso pode multiplicar o ambiente positivo à nossa volta? E que um «obrigado», um gesto de ajuda, um «se faz favor», um elogio… quando genuínos e prazenteiros, multiplicam a felicidade de multidões?
Fiquemos com a aragem promissora da multiplicação de respostas eficazes aos nossos mais profundos desejos e problemas.
Não deitemos fora os cinco pães nem os demos ao virar da esquina: estudemos a arte de os multiplicar.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
