Não está aqui!

A tentação dos humanos é sempre a de procurar as pessoas, as coisas, os acontecimentos… como algo que se filtra pelos sentidos, que se toca, que se ouve, que se vê… Embora dotados de vida espiritual, mais facilmente nos exprimimos na nossa condição material: procuramos o imediato, vemos com os olhos do corpo, buscamos o que nos faz vibrar os sentidos.

Jesus entrou no mundo dos sentidos, deixou-se tocar, ver, ouvir… Mas esse foi o Seu despojamento completo, para entrar na mais profunda empatia com a Humanidade. E assumiu, de verdade, tudo o que é limitação em nós, do espaço e do tempo. Desceu ao meio da vida dos homens, perdeu mesmo o aspecto de homem, solidário com todos os desfigurados. E assumiu até aquilo que consideramos o nosso fracasso final – a morte!

Mas nEle, em união pessoal, habita o Verbo eterno de Deus. Ele não fica na escuridão da morte. Pela Sua fidelidade, Deus o exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, retomou-o para a plenitude da Vida, pela Ressurreição. Retomou-nos, nEle, para a participação na Vida em plenitude. É que Jesus é o Cristo: o homem de Nazaré é o Ungido de Deus!

Pelo Seu dom de vida entregue por nós, pela Sua ressurreição, uma pura semente de alegria passa a estar no coração da pessoa humana, de toda a pessoa humana; o segredo da vida e da esperança repassa agora todo o nosso quotidiano, mesmo a própria dor e a morte.

O Senhor Jesus é o mesmo: “Põe a tua mão no meu lado!”… “Tendes alguma coisa para comer?”… Mas já não é manipulável, já não é abarcado pelos sentidos: “Não me toques!”… A certeza de que Ele está vivo ultrapassa a visão dos olhos, o tacto das mãos, a observação dos sentidos. Ele ultrapassa as dimensões do espaço e do tempo: “aparece”, não vem!

A Sua presença agora é detectável na “memória” que dele fazemos nos Sacramentos, por excelência na Eucaristia – dom de Si mesmo no Seu gesto salvador! -, na Sua Palavra, nos frutos que a paixão dos que a Ele aderem produzem. É nessa mistura salutar de celebração, de confiança, de acolhimento da certeza de que está vivo, de testemunho consequente com o que Ele fez e ensinou, que brilha a Sua pessoa, que Ele é reconhecido como o Senhor, tornando-se motivo para outros acreditarem.

Não O encontraremos na Sua carne. Mas percebêmo-lO por aí, por tantas formas inquestionáveis da Sua vida que passa na vida das Pessoas e das Comunidades, na vida da Sua Igreja e na vida de tantos que se dão, em Caridade pura, ao serviço dos Irmãos.

A Ressurreição aconteceu na história. Mas, por ela, Jesus Cristo “voou” para além dos seus limites – o espaço e o tempo. Para nos garantir, para garantir a toda a Humanidade, a possibilidade de se ultrapassar a si mesma e Viver para além da vida!

Este é o Mistério Pascal: passagem da morte à Vida, da história à Eternidade, que ilumina e dá sentido às vidas, que permite ao Homem cantar o seu triunfo. Nada nem ninguém nos poderá arrebatar a originária e genuína fonte da Alegria!