Simples, mas expressiva, esta estrofe da oração da manhã do domingo da Sagrada Família. “O vosso Salvador não surgirá / de algum palácio de famoso rei; / na casa de José vos aparece, / tão pobre e humilde como sua Mãe”.
Breves frases que deixam pintado um cenário de modéstia, harmonia e beleza, facilmente identificável com a vida serena e feliz de uma família laboriosa, aberta, onde reina a interioridade e a cooperação. Embora uma família diferente, porque aí vive “Aquele que do mundo é o Senhor”, a normalidade da vida familiar é de tal ordem que o poeta ousa perguntar: “Quem adivinhará nesta criança o prometido Príncipe da Paz?”.
O Natal é a festa da Família. Mas, se nos povoam o pensamento ideias grandiosas – reúnem-se as famílias em círculos alargados, acrescenta-se e enriquece-se a mesa com inusitadas iguarias, trocam-se presentes…, para se ficar, às vezes, mais pobre por uns tempos, sobretudo para se ficar mais vazio do espírito, porque as festas não passaram desse bulício comercial e social, sem consequências de caridade fortificada, sem esperança renovada, sem fé incendiada… Hábitos estranhos tomaram o lugar da inspiração cristã do encontro familiar. Principalmente, a terna cena da gruta de Belém deu lugar a luzes cintilantes de ilusões, que esvaziaram o cerne do acontecimento natalício.
O Natal é a Festa da Família, porque o Verbo de Deus, o Filho eterno do Pai, tão somente nasceu de uma humilde mulher de Nazaré, deixando-se proteger e guiar por um homem justo, modesto carpinteiro. Consagrou, desse modo, o núcleo familiar como o ambiente normal, o espaço adequado, onde se possa crescer em idade, sabedoria e graça. E regenerou, dessa forma, os laços afectivos da Família, como o lugar de gestação de uma humanidade nova, célula fundamental da sociedade e expressão viva da Igreja. “Assim começa a nova humanidade / na sagrada família em Nazaré. / Ali encontrarás a tua imagem, / Povo de Deus, Igreja Universal!”.
É à luz do Presépio que se percebe a densidade do Natal como Festa da Família. O Messias prometido nasce no seio do amor familiar, para consagrar a Família como o primeiro e o mais excelente lugar do amor.
Poderá não haver dinheiro para presentes, as iguarias poderão estar longe do alcance de tantas bolsas magras, a luz poderá ser apenas a da lareira ou de uma única vela decorativa, não haverá porventura árvore de Natal… Mas brilha num canto da casa a ténue estrela sobre a réplica da Presépio – de cartão, de cortiça, do mais tosco barro… E nela se acendem os corações de pais e filhos, talvez dos avós! Os manjares do carinho, a doçura das palavras, a atenção de todos a todos, tornarão viva a incarnação do Menino Deus, verdadeiramente sentido como Emanuel – Deus connosco!
Esse é o verdadeiro Natal da Família. Embalados neste calor de vida, os petizes adormecerão pintando de estrelas os seus sonhos, para acordarem em sobressalto na esperança da visita nocturna do Menino Jesus, que sempre há-de arranjar alguma coisa para lhes deixar no sapatinho. Os Pais, aliviados das agruras do dia a dia por este fecundo encontro de amor – expressão inegável da sua entrega matrimonial – repousarão na alegria do seu sacrifício transformado em presente simples, mas de inestimável valor.
Porque Jesus nasceu numa Família, o Natal é a Festa da Família! Porque Jesus nasceu em Família, em Família para cada um de nós se faz Natal!
