Ninguém sabe explicar a crise, mas a responsabilidade é de todos

Barbosa de Melo aos responsáveis das Cáritas Diocesanas “A crise, hoje, é mais grave do que ontem. Mas ontem era mais grave do que há uma semana. E o que podemos dizer sobre ela, além de que devemos transformá-la em oportunidade? O que posso dizer sobre a situação em que está o mundo?” (…) Sejamos humildes. Ninguém percebe nada do que está a acontecer”, afirmou Barbosa de Melo aos representantes de 19 Cáritas Diocesanas (das 20 que há em Portugal), reunidos em Conselho Geral, numa sessão que decorreu em Anadia, no Museu do Vinho, no dia 22 de Novembro.

Segundo o antigo presidente da Assembleia da República e ex-conselheiro de Estado, “não há uma certeza quanto ao diagnóstico, nem quanto ao prognóstico”. Reúnem-se as instâncias, como o G20 (grupo das 20 maiores economias) ou Conselho para a Globalização (por iniciativa do Presidente da República) e o que sai destas reuniões? Pouco ou nada. “O G20 decidiu voltar a encontrar-se em Março [de 2009] para avaliar bem as coisas… Ninguém sabe de nada e todos fazem de conta”, afirmou Barbosa de Melo. Vive-se “uma crise civilizacional”.

Barbosa de Melo traçou um quadro negro do panorama internacional, com “novos retornados” devido à crise noutros países, um “nó gordio no petróleo e nos cereais, a precisar de um novo Alexandre Magno”, uma crise financeira e energética (“nos próximos 20 anos não vai haver dinheiro”), mas deixou também uma interrogação e alguns sinais de esperança. A interrogação, dirigiu-a aos cristãos, a todos, e não apenas aos que estavam no Auditório do Museu do Vinho: “Parece que fomos apanhados de surpresa… Parece que não temos lido sobre isto. A nossa alimentação cultural desconhece o que os Papas escreveram sobre o trabalho e a economia. Já leram as encíclicas sociais?”

Um dos sinais de esperança, segundo Barbosa de Melo, vem do outro lado do Atlântico. Obama, presidente eleito dos EUA, colocou a energia no centro das preocupações, meses antes de ser eleito. Constitui “um sinal de optimismo que tenha percebido que é preciso mudar a política energética”, afirmou Barbosa de Melo.

No diálogo com os cerca de 60 dirigentes da Cáritas, manifestou outros sinais de optimismo, como o facto de as novas gerações, por via da preocupação ecológica, terem atitudes menos consumistas e mais solidárias. No final, Barbosa de Melo reforçou a convicção de que “seja qual for o princípio em que radique a ideia de que o homem tem uma dignidade que não pode ser ignorada, para os cristãos e humanistas, a responsabilidade é sempre individual e colectiva”.

J.P.F.

Cáritas atenta à crise em Portugal

Durante o Conselho Geral da Cáritas, além dos assuntos internosda organização, os responsáveis apontaram “novas realidades e novas situações críticas que urge acautelar” em Portugal. São bem o diagnóstico das dificuldades que os portugueses vivem: o aumento do desemprego e a precarização do emprego; aumento dos sem abrigo; o crescimento do número de crianças em que o do apoio alimentar escolar a única garantia de uma refeição diária; o crescimento do número de famílias que não têm dinheiro para os livros escolares; crescimento do número de pessoas – incluindo oriundas da classe média – que estão descapitalizadas e endividadas e que não conseguem manter níveis de vida condignos; aparecimento de pequenos empresários (empresas familiares) em situação de falência total e com necessidades a todos os níveis, que, em muitos casos, alargam o número de situações de “pobreza envergonhada”; aumento da procura de artigos para bébés, de pedidos de apoio para despesas fixas de medicamentos, renda de casa, água e luz; aparecimento de um número muito significativo de pedidos provenientes de estudantes dos PALOP que não conseguem subsistir com as bolsas a que têm acesso…

O Conselho Geral da Cáritas considerou que a crise, sejam quais forem os seus contornos, “obriga a agir de forma pró-activa, com particular incidência nos domínios da educação”, e propôs medidas que “impeçam a pressão do assédio no acesso ao créditos”, a organização de campanhas para promover a economia dos recursos energéticos e outros, o reforço de políticas activas de emprego e de formação profissional. A Cáritas considera que “como medida conjuntural” deve-se prolongar a duração da prestação social de desemprego, “caso se verifique, como está previsto, um aumento significativo do desemprego”.