À Luz da Palavra – 5º Domingo do Tempo Comum – Ano C A liturgia de hoje convida-nos a reflectir, seriamente, sobre a nossa vocação cristã, exactamente neste domingo dedicado às vocações de consagração a Deus. Há muitos modos de seguir Jesus, em Igreja: há os cristãos que seguem o caminho mais comum, o do matrimónio; há alguns que são chamados ao ministério ordenado, há mulheres e homens que se sentem interpelados a uma especial consagração a Deus, na vida monástica ou na vida apostólica; e há as pessoas que se decidem pelo celibato consagrado no meio do mundo. No interior destes estados, cada pessoa tem a comum missão de anunciar com a sua vida, palavra e acção, Jesus Cristo e a sua men-sagem libertadora às pessoas do seu tempo. Como me sinto face à minha vocação na Igreja?
A primeira leitura é uma catequese sobre a vocação, a propósito do chamamento do profeta Isaías. Nela encontramos o itinerário de toda a pessoa que é chamada por Deus a uma missão especial. Em primeiro lugar, é Deus que chama. Diante deste Deus grande e majestoso, a pessoa chamada sente-se pequena, indigna, limitada, incapaz de realizar a missão a que é chamada. Isaías exclamou: “Ai de mim, que estou perdido…”. Muitos jovens e menos jovens, ficam estarrecidos, como Isaías, mas preferem não se comprometer. Contudo, no nosso texto, a “purificação” dos lábios do profeta é um sinal que nos revela que, quando Deus escolhe alguém, não há indignidade, nem limitações pessoais que constituam obstáculo à missão. Por isso, Isaías aceita a missão que Deus lhe confia e responde-lhe humilde e confiadamente: “Eis-me aqui: podeis enviar-me”.
No evangelho, Lucas apresenta-nos os elementos essenciais para que alguém siga verdadeiramente Jesus, em qualquer situação de vida cristã em que se encontre. É preciso estar do lado de Jesus, estar com Ele “no mesmo barco”. O barco significa a comunidade cristã, que está encarregada de O anunciar ao mundo, com a sua proposta de libertação. O cristão e a cristã hão-de escutar a palavra de Jesus, seguir as suas indicações e reconhecer nele o “Senhor” que dá a vida e faz frutificar tudo e todos. Pedro exclamou: “Mestre, já que o dizes, lançarei as redes”. Jesus convida-nos a ser também, hoje, “pescador de homens”, como disse a Pedro, o que significa que cada cristão e cada cristã é chamado a activar a obra libertadora, que Jesus iniciou, nas tarefas do mundo e junto das pessoas oprimidas pelos medos e sofrimentos vários, que impedem a sua felicidade. Para isso, precisamos, nós próprios, de estar desprendidos e libertos, “deixar tudo”, permitindo que Jesus, pelo seu Espírito, nos santifique e nos contagie com a sua alegria, pois que ela é um fruto da acção do Espírito Santo em nós.
Com Paulo, ousemos fazer a experiência de viver em permanente “ressurreição” em Cristo. Nem as limitações pessoais, nem os obstáculos exteriores nos podem impedir de viver a sério o nosso compromisso vocacional cristão, porque a graça de Deus está connosco e, em nós, não pode ser inútil. Porque é que haverá tanta dificuldade em aceitar a chamada de Deus quando ela nos indica o caminho de uma total consagração?
Leituras do 5º Domingo do Tempo Comum – Ano C: Is 6,1-2a.3-8; Sl 138 (137); 1 Cor 15,1-11; Lc 5,1-11
Deolinda Serralheiro
