Testemunho A minha Catequista
Até certa altura, a minha relação com a Igreja não passava de ir assistir à saída das miúdas das missas, na Igreja da Misericórdia, com um grupo de amigos. Até que comecei a andar mais frequentemente com uma miúda, contemporânea no Liceu. Passou a ser, para além de outras coisas, a minha catequista. A minha evolução, como cristão, foi lenta, mas parece-me que segura. Exigiu muita paciência da catequista, não só para ensinar e para me acompanhar na descoberta de Cristo, mas com certeza para aturar a irreverência e talvez o atrevimento provocados pela minha total ignorância. O espírito cristão e as bases sólidas em que assentava o seu cristianismo foram conseguindo o milagre e principalmente o amor pelo aluno. A minha catequista era a Eneida, que teve de suportar a minha falta de sensibilidade para muitos assuntos da Igreja e, quantas vezes, os ditos inconvenientes do meu pai. Penso que ainda tenho escritos em bocadinhos de papel o Pai-Nosso e a Avé-Maria, a Confissão e o Acto de Contrição. E eu lá ia acompanhando a miúda à missa dominical. E o meu coração abria-se ao mesmo tempo, e com igual intensidade, para Cristo e para a Eneida. Um dia, acompanhou-me a uma capelinha do Seminário, nas instalações das freiras, onde me confessei pela primeira vez ao Sr. P.e João Paulo Ramos. Teria uns dezoito anos. Logo a seguir, comunguei pela primeira vez. Por vezes, dá-me para pensar: que teria sido a minha vida sem a Eneida? Que caminhos teria eu percorrido? De que critérios me teria servido para, em todas as encruzilhadas da vida, poder escolher sempre o caminho do bem, da honra, da tolerância, do amor? Sei que muitas vezes não terei escolhido o caminho que Cristo estava à espera que eu seguisse. Mas sei que tenho tido sempre o discernimento de reconhecer que o caminho não deveria ter sido aquele, e consegui ter a humildade de me penitenciar. Tudo o que fiz de mal na minha caminhada para Cristo foi por minha insuficiência. Tudo o que tenho feito de bom, devo-o a Cristo, a muitos amigos e à Igreja. Mas no início e por todos os caminhos desta vida já com muitos anos esteve sempre a Eneida. Casámos na Igreja de Jesus, mesmo ao lado da nossa casa, fomos cumprindo com os preceitos mais rudimentares da Igreja, educávamos os nossos filhos como cristãos, e como cristãos lidávamos com a vida e com as pessoas mais próximas. Estou convencido de que mais tarde ou mais cedo me teria afastado da Igreja devido ao ram-ram em que a minha prática cristã se estava a tornar. É verdade que eu tinha um pé dentro da Igreja, na prática dominical, na amizade com alguns sacerdotes, no convívio com vizinhos que frequentavam a Sé ao Domingo. Mas ia sentindo cada vez mais que o resto do meu corpo estava fora.
O Concílio
e os Cursos de Cristandade
Tive a felicidade de participar em dois enormes tremores de terra que abanaram a Igreja desde os seus mais profundos alicerces e que me fizeram andar aos saltos como uma bilharda batida por potente bastão. Dois tremores de terra quase coincidentes no tempo. O primeiro foi a abertura do Concílio Vaticano Segundo, a 11 de Outubro de 1962. Passados cerca de dois anos, Cristo pegou em mim e atirou-me para o núcleo do outro tremor de terra: o terceiro Curso de Cristandade da Diocese de Aveiro, de 10 a 13 de Junho de 1964. E nunca mais nada foi como era: a minha vida, a nossa vida, passou a ser um turbilhão. Às vezes até tínhamos dificuldade para respirar. O Concílio veio dizer-me que os padres conciliares “reconhecem perfeitamente quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. (…). Aos leigos compete, por vocação própria, buscar o reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus. (…) Os leigos são chamados, de modo especial, a tornar presente e operante a Igreja naqueles lugares e circunstâncias onde Ela só por meio deles pode vir a ser sal da terra. Assim, todo o leigo por virtude dos dons que recebeu, é testemunha e ao mesmo tempo instrumento vivo da própria missão da Igreja, segundo a medida do dom de Cristo”.
E muito mais. Comecei a entender e a assumir que não estava e não estou na Igreja para ser tolerado. Para ser tolerado pelo Bispo ou pelos sacerdotes, e muito menos para os reverenciar servilmente. Estava e estou na Igreja porque faço parte dela. A minha missão na Igreja sou eu que a tenho de desempenhar. O que eu tenho que fazer na Igreja e no mundo, se não o fizer, ficará eternamente por fazer. Mas sei que aquilo que Deus quer que eu faça eu sou capaz de o fazer. E à medida que fui compreendendo a minha função na Igreja de Cristo passei a estar dentro dela com os dois pés, com todo o corpo, com o coração inteiro.
Depois do princípio do terramoto, o Concílio, veio o golpe final, os Cursos de Cristandade. Um dia um amigo convidou-me a participar num Curso de Cristandade. Depois de ter usado de todos os argumentos para provar que não precisava de participar em tal curso, algo foi mais forte do que eu. Quando dei por ela, lá estava eu no 3.º Curso de Cristandade da Diocese de Aveiro, numa casa de religiosas na Praia de Mira. Tinha 28 anos. Estava casado havia três anos. Praticava desporto ainda intensamente. Estava metido e comprometido no mundo, no meio dos homens. Considerava-me um homem, muito homem. O desporto tinha-me dado uma maneira de ser de grande domínio das situações e uma personalidade muito forte. A Igreja era para as mulheres, ou para homens um pouco efeminados… Passei os três dias do Curso carregado de dúvidas e com um aguçadíssimo espírito crítico em relação a tudo que se ia passando. Que raio estou aqui a fazer? Não sei quando, nem sei como. Só sei que, aos poucos, por fases, fui descobrindo que ser cristão era para homens e mulheres, com letra grande. Ser verdadeira e autenticamente qualquer coisa exige grande capacidade de discernimento, muita coragem para se impor no meio em que se vive. Só um banana, dizendo que sim aqui e que não acolá sobre o mesmo assunto, não sendo capaz de impor as ideias em que acredita, não sente a mais pequena dificuldade. Acabaram-se os três dias. A Eneida e eu fomos conversando. Fui assentando ideias, e aos poucos comecei a entender que foi Cristo que me marcou para ir a um Curso de Cristandade. Fui percebendo que se eu fosse melhor, o mundo seria melhor, os meus amigos poderiam ser melhores, as equipas onde eu praticava desporto poderiam ser melhores, os meus colegas poderiam ser melhores, a minha mulher, os meus filhos, toda a família poderia ser melhor. Aos poucos fui assumindo que Cristo esperava muito de mim. E como diz uma canção em voga, “entreguei-me todo a Cristo”. E entreguei-me todo a Cristo, exactamente como sou: fazendo um esforço diário por ser melhor e mais cumpridor, é verdade, mas sempre com a preocupação de usar de toda a frontalidade com as pessoas, e por isso sendo muitos vezes injusto e arrogante com as pessoas. Sempre com a preocupação de ser verdadeiro até às últimas consequências, mas faltando às vezes à caridade para com os outros. Entreguei-me todo a Cristo, com a alma muitas vezes amargurada por ter a consciência de errar tantas vezes e de nem sempre fazer tudo para deixar de errar com tanta frequência. Mas tenho a certeza de que Cristo terá sempre os braços abertos para me receber. Ao transmitir-vos agora estas recordações, ao rebuscar no baú das minhas memórias, estou a fazer uma espécie de balanço à minha vida. Penso e espero que o saldo seja positivo.
As minhas preocupações apostólicas
Algum tempo depois do meu Curso de Cristandade, a Eneida fez o dela. Não se realizavam ainda Cursos para Senhoras em Aveiro, pelo que fez o seu no Porto. Pouco tempo depois chamaram-nos, aos dois, para a escola de dirigentes dos Cursos de Cristandade e passámos a fazer parte das equipas orientadoras. Fui dirigente, pel primeira vez, no 10.º curso. Se não me engano, a Eneida fez o primeiro curso como dirigente ao 17.º. E depois perdi-lhes a conta: como dirigente e como reitor.Estivemos os dois no Secretariado Diocesano dos C.C. e depois, durante uma série de anos, fui chamado para Presidente do Secretariado Diocesano. Entretanto fomos assumindo compromissos de vária ordem a chamamento do Bispo, do Pároco, de sacerdotes de outras paróquias e também de outras organizações da Igreja. Colaborámos activamente na nossa paróquia com o P.e Arménio e o P.e João Gonçalves. Tantas vezes estes dois sacerdotes me ajudaram a ultrapassar dúvidas e arrependimentos! Foram dois grandes amigos. Com eles passei, passámos por todos os serviços paroquiais imagináveis: o arranque dos cortejos do Carnaval, as comissões fabriqueiras, as obras, as catequeses, os convívios de Verão, os cursos de preparação para o Matrimónio a remodelação da catedral com o P.e Arménio, a construção da residência paroquial. E fui treinador de andebol de uma equipa do Seminário. E que boa equipa conseguimos fazer! E andei por toda a Diocese a “pregar” a mando de D. Manuel de Almeida Trindade. Este senhor bispo ouviu-me tantas vezes nos tempos conturbadíssimos do pós 25 de Abril.
Nestes 50 anos dos Cursos de Cristandade, não pude deixar de recordar o que tem sido a minha vida. E não posso deixar de ter um sentimento de gratidão para com Cristo, que um dia me atirou para um Curso de Cristandade.
