Notas de um estágio em Angola

Acordando durante a noite, estava um calor tremendo. Apenas me cobria com um simples lençol, dado que por aqui existem mosquitos chatos e maliciosos.

Às 6h45, era hora de oração. Apesar de ter acordado cedo várias vezes, chegou o momento e passei pelo sono. Acordei às 7h20; e vesti-me rapidamente, para ainda ir rezar as Laudes, tomar o pequeno-almoço e depois estar, às 8h00, na Delegação Salesiana (DS), que fica sensivelmente a uns 200 mts de distância da Paróquia de São Paulo. O pequeno-almoço foi um belo café com leite em pó, com um pouco de pão com manteiga. Depois fui então rezar, sem me esquecer de pegar nos cadernos e agenda para usar na reunião.

Vendedor de pipocas

A caminho da delegação, encontrei o Afonso, um rapaz que na altura do Verão (nosso), Inverno (deles), vendia pipocas. Já era hábito, quando alguém vinha para o campo da paróquia, trazer na sua mão umas ricas pipocas. Ele pertence agora à Igreja Universal, e as coisas não lhe têm corrido muito bem… Até aqui, ele vendia pipocas à entrada da CEAST (Conferência Episcopal de Angola e São Tomé), aqui agarradinho à paróquia. São centenas os jovens que passavam por aqui… Não estando naquele sítio, deve ter mais dificuldades. No entanto, pelo que deu a entender, esforça-se bastante. O dinheiro não fica para ele… Disse-lhe que apenas poderia ajudá-lo escutando-o e rezando, para que tudo fique bem e a situação melhore.

Na Editora, fiquei a conhecer melhor como funcionava, e quem lá trabalha, pois tinha alguns membros novos desde a minha estadia por cá! Cativa-me o desafio que tenho de enfrentar com eles… Vou crescer profissionalmente na área em que me formei.

Já passava da hora de estar na paróquia. Apressei-me a regressar; no entanto, ainda fui tirando dúvidas, principalmente ao Paulo. Só depois é que as minhas sandálias deram uso ao caminho cheio de pó, areia, carros, e povo. A confusão do trânsito já previsível. As ruas cheias de lama. Junto à casa, temos um enorme lago cinzento-escuro, fruto das fortes chuvas que aqui já aconteceram.

Mamã Susana e mamã Helena

Quando cheguei, já tinham terminado a oração da hora intermédia.

Fui ao primeiro andar cumprimentar as minhas meninas grandes da casa, que para muitos passam despercebidas, mas de quem eu gosto muito: mamã Susana e mamã Helena. São elas que lavam, passam e põem a roupa nos i’s. Como trabalham no terraço da casa, raramente se vêem na parte de baixo. A mamã Susana nem acreditava que era eu… Pensava que não voltasse mais. Enganei-a!!! Disse-me que eu estava diferente. Vamos ver… Almocei rapidinho, para não fazer com que os padres demorassem muito à mesa, dado que eles estavam quase a terminar.

Depois, estive um pouco com o Vivaldo e o Félix a conversar; talvez ainda hoje tenhamos oportunidade de ir à praia. Ainda não está definido.

O Pe. Cassoma, o companheiro de viagem e “Vigário Paroquial do Mota” (brincadeira), regressou do retiro do Poço, que durou até segunda. Muito bem disposto, mas sempre a trabalhar. Vive para ajudar e ver o seu povo a crescer na fé e na força do trabalho. O Pe. Cassoma tem consciência que tudo cresce, se for com esforço e dedicação. Admirável!

Retomando… Não chegámos a ir à praia. Aproveitei e fui ao bairro do Mota com o Pe. Cassoma. Mais uma alegria: encontrei alguns meninos que não tinha visto no dia anterior, e a Mana Berta. Grande alegria.

Ao bater ao portão da casa Magone, o Jorgito abre-me o portão, mas vira logo costas dirigindo-se ao refeitório. Mas pensou e voltou a olhar para trás. Num tom eufórico disse: “Pedroooo, Pedrooo”; e saltou para cima de mim, cheio de gáudio. Os outros rapazes aproveitavam um bom jogaço contra o grupo de jovens ADS (Amigos Domingos Sávio). Fiquei por lá um pouco, mas não joguei. Fui conhecendo meninos novos que foram para a casa Magone. Depois, estive a conversar um pouco com o Pe. Cassoma sobre assaltos que ocorreram no Centro Profissional do Mota, levando todo o dinheiro que ele tinha no escritório.

Uma mulher batalhadora

Regressámos por volta das 18h00 para São Paulo, indo à missa às 18h30. A celebração corria muito bem, com o Pe. Agnaldo a celebrar. Na altura da comunhão, aproximando-me do ministro, uma pessoa toca-me ao de leve. Era a Tia Chica, a minha mamã angolana, com quem já tinha falado por telefone. Sempre sorridente e alegre. Uma mulher batalhadora. Admiro-a pelo esforço que faz… Trabalha muito para sustentar os filhos que estão em Portugal, principalmente a filha (Carina), que estuda na universidade, em Lisboa. Imagino as saudades que tem deles, e que transparecem quando falamos desse mesmo assunto. Para além disso, ainda acumula bastantes responsabilidades nos Salesianos, onde é responsável por tratar dos vistos e por tudo o que se relacione com os voluntários a nível de documentação.

À saída da missa encontrei um amigo que, surpreendido ao ouvir pronunciar o meu nome, não estava a acreditar. Era o Adolfo, um paroquiano que estava numa altura difícil, a quando da minha permanência em Agosto. Desabafou muito comigo. Fiquei sem contacto com ele, desde que saiu da empresa onde trabalhava [Novembro]. Pusemos a conversa toda em dia… e sei que ele agora está bem melhor. Um pai babado.

Dei uma passagem no grupo da comunicação; e mantém-se igualzinho desde que fui. É um bom grupo, apesar de algumas desavenças entre os membros que a ele pertencem. Isto acontecia e ainda acontece. Rezo por eles.

Preparávamo-nos para fechar o portão às 21h00, a fim de rezarmos as Vésperas e em seguida jantar. O Pe. Mila faz 50 anos que se encontra ao serviço de Deus e dos Jovens na Congregação Salesiana. Vamos festejar, no dia 31 de Janeiro. Também farão a renovação dos votos, no Mota, o Vivaldo e o Félix, que se encontram a fazer pastoral de férias aqui na comunidade de São Paulo.

Temos cá o Steffan, italiano, que estava a fazer a formação de Salesiano no Quénia. A sua adaptação não correu muito bem, tendo sido enviado novamente para cá, onde já esteve a fazer experiência missionária durante 2 anos, na Lixeira. Agora, aguarda para ver o que decidem.

Ana Laura a caminho

de Lwena

Soube ontem que a Ana Laura, que não está comigo, mas sim nas Escravas do Sagrado Coração [as irmãs que ela adora e que a acolheram muito bem desde a sua primeira viagem a Angola], partirá para Lwena nesta quinta-feira, 1 de Fevereiro. Deve estar a ser difícil para ela ir tão cedo para Lwena. Ela ainda queria dizer um “Olá” a muita gente. Ainda não falei com ela hoje. Deve estar desesperada. Tem sido difícil arranjar voos para Lwena. Ela tem de aproveitar o primeiro, dado que pode não voltar a haver tão cedo. Espero ainda dar-lhe um beijo de despedida.

Ah… Já coloquei o mosquiteiro no quarto. Que emoção! Nunca gostei muito de o ter das outras vezes em que cá estive, ignorando-o mesmo. Mas este ano tem que ser… O calor é demais; e a praga do mosquito ainda maior. Se correr uns cinco metros, fico a transpirar litros de água. Mas um banhito de água fresca, ao final do dia, cura tudo.

Pedro Barros, em Angola

29 Janeiro 2007