Olho de Lince Há muito que lhe conheço a expressão do rosto. Habitualmente fechado, por causa da vida madrasta que foi o seu quotidiano durante muitos anos. E agora, em idade avançada, a esperança parecia esgueirar-se de todo no lamaçal da solidão.
Na aldeia ainda funciona a relação de vizinhança: às vezes, para o mal; muitas vezes, para o bem. E foi o caso. Alguns vizinhos, sabedores da situação e conhecendo vias de solução, interessaram-se por abrir janelas a esta vida já tão escurecida.
A decisão foi tomada: uma instituição assumiu uma parte dos cuidados; os vizinhos asseguram o resto. E não é pouco: o encargo diário de passar a ver como está, aquecer o jantar, uma ajudinha para a deita.
Passei, há dias, para ver como estava a reagir ao novo estatuto. Nem queria acreditar no rosto feliz, sorriso aberto, que encontrei. A modéstia da habitação ilumina-se agora com o ar de arrumada e limpa. Mas sobretudo com a esperança reconquistada, com a alegria agradecida.
Não é difícil devolver o gosto de viver! Basta que se ame!
Q. S.
