Colaboração dos Leitores Li, há tempos, um apelo do Correio do Vouga, jornal da Diocese de Aveiro, aos leitores, para transmitirem aos responsáveis pelo mesmo a sua reacção ou sentir sobre os temas que aí são escritos. Neste sentido e no espírito da preconizada nova evangelização, gostaria de tecer os seguintes comentários.
O primeiro é que a expressão nova evangelização é, semanticamente, tautológica, redundante, repetitiva. Vejamos: a palavra evangelização deriva da palavra Evangelho que, na sua origem grega, quer dizer boa nova/notícia/mensagem.
Desdobrando a expressão nova evangelização concluiríamos, então, que será igual ou o mesmo que nova boa nova/mensagem. Ora não há uma nova boa nova/mensagem ou seja não há um novo Evangelho; há sim um evangelho (em quatro narrativas canónicas) que nos apresenta a mensagem de Jesus, pessoa humana e divina sempre nova nas suas palavras, gestos, acções e relacionamento com os outros. Ele é verdadeiramente o Lógos, a Palavra encarnada, amorosa, criadora e renovadora de Deus.
Assim o que se devia pretender seria a revitalização vivencial do Evangelho, sobretudo com novas praxis cristãs, novos comportamentos, formas de agir, processos, técnicas e meios de anunciar a mensagem de Amor que Jesus veio trazer ao mundo, para os homens de todos os tempos. Nos Evangelhos, principalmente no de João, isto está condensado nas acções e palavras de Jesus, durante a última ceia, em que Ele quer como que resumir e deixar bem gravado na cabeça dos Apóstolos e discípulos o essencial do que será ser Seu amigo: a prática, a vivência incondicional do Amor, palavra-chave do Novo Testamento que, então, Ele lhes/nos deixou.
O segundo é uma ligeira discordância com o que o pároco diz na sua entrevista, a propósito das obras feitas na matriz de Vagos. Tem a ver com a centralidade do altar da Eucaristia e do ambão da Palavra.
O Vaticano II assim o propôs de tal modo que a Eucaristia – vulgo missa, termo que já devia ter entrado em desuso – fosse não com o presidente da assembleia de costas voltadas para a mesma, mas de frente, de olhos nos olhos. E ainda que a Palavra seja proclamada na língua vernácula de cada povo. E com isto nada se perde do mistério de fé que, mesmo assim, esta celebração litúrgica continua a ser e a ter. Não é, pois, necessário entrar em paranóias de ocultismos ou dizer coisas totalmente inacessíveis à compreensão da Assembleia, pela barreira de uma língua como actualmente o Latim. Já bem basta o carácter fechado e de difícil compreensão das leituras propostas em cada Eucaristia, para quem tem pouca formação bíblica. Essa de muitos liturgistas da actualidade quererem cultivar o mistério intrínseco à celebração eucarística à custa de um regresso a práticas dos tempos tridentinos não passa de um saudosismo bacoco da igreja triunfalista anterior ao Vaticano II, hoje quase obnubilado, com grande responsabilidade da hierarquia.
Além do mais, tais atitudes estão contra o espírito da Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II e a subsequente Constituição Apostólica “Missale Romanum”, de Paulo VI, que promulga o Missal: “Queremos também que tudo quanto nesta Constituição fica estabelecido e prescrito tenha força de lei, agora e para o futuro, não obstando, se for caso disso, as Constituições e Ordenações Apostólicas dos nossos Predecessores, ou quaisquer outras prescrições, ainda que dignas de especial menção ou derrogação”.
O terceiro e último comentário é sobre As cinco pedrinhas mágicas propostas para atingir a graça santificante: 1.ª a vivência da Eucaristia; 2.ª a confissão; 3.ª o rosário; 4.ª leitura e estudo da Bíblia; 5.ª jejum.
Desconfio que fossem estas as prioridades sequenciais de Jesus.
Com a primeira até concordo, mas numa Eucaristia como celebravam os apóstolos e discípulos (entenda-se comunidade cristã), fazendo memória de Jesus e a partilha do pão por Ele mesmo proclamada: “Dai-lhes, vós mesmos, de comer”.
Quanto à segunda, continua interiorizado o espírito tribunalesco do tridentino (muito custa a dar o passo em frente para o Vaticano II!). Então não devia, ao menos, ser reconciliação?
Quanto ao terceiro, bem mal! Então já nem só o terço? E mesmo assim lembrar que esta prática popular de rezar (recitar, dizer de cor; não orar!), vem dos tempos em que o povo não sabia ler e não teria, por isso, muitas outras formas palpáveis de praticar/viver a sua religiosidade, aprofundar a sua fé e cultura bíblica. Por isso a Igreja tornou aconselhável essa devoção. Em todo o caso, é bom lembrar que ela tem muito de semelhante ao que o próprio Jesus censura quando diz que não é com o dizer muitas palavras (distraída e mecanicamente), sem uma verdadeira relação do emissor (pessoa orante, que sabe e pensa o que diz – caso contrário será uma conversa tola) com o receptor (Deus, a Quem mesmo no Seu silêncio entendemos como nosso dialogante) que se é agradável aos olhos de Deus.
Quanto à Palavra de Deus está relegada, postergada para sítio nenhum, que não é o seu. Não ficaria nada mal-estar mesmo em 1.º lugar, pois, como diz S. Paulo, “fides ex auditu”, “a fé nasce do que é ouvido, proclamado, lido”. E os católicos apostólicos romanos, na generalidade, lêem muito pouco a Bíblia. Se ao menos, em cada dia, fizessem as leituras que estão no missal quotidiano! Mas quantos o farão? E sem fé prévia, nem a própria Eucaristia tem sentido. Não seria, pois, nada mau propagandear a necessidade da leitura da Bíblia de modo que esta fosse mais “obrigatória” do que a reza do terço. Muitas pessoas declaram na Penitência como “pecado”(?) o não ter rezado o terço. Mas quantas fazem o mesmo sobre a leitura da Palavra de Deus?
Sobre a última pedrinha – o jejum -, o que é essencial é que ele deve contribuir para nos tornar “solidários, pois o que não comemos devemos dar em esmola”. Diria: partilhar ainda muito mais do que as economias fruto das refeições económicas que sempre devemos fazer. Não são as outras coisas que se dizem que dão o valor ao jejum. Jejuar, vestir-se com sacos, de anjinho ou outros quejandos, fazer peregrinações ou procissões mais ou menos folclóricas, esfarrapar o corpo, os pés e os joelhos, fazer sacrifícios, será isso que agrada ao Senhor? “O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, por em liberdade os oprimidos… repartir o teu pão com o faminto, dar casa aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?” (ver Is 58, 1-9).
Assim, se viverá o “dom mais excelente” de que fala S. Paulo: a Caridade. Posso rezar muito, cumprir todas as minhas obrigações religiosas e mais algumas “Mas se não tiver Caridade, nada valho”, como discípulo de Jesus. Serei só blá-blá, como o sino que toca e faz tanto barulho que, por vezes, só incomoda.
Fernando Neves
Jornal de diversas sensibilidades
Caro Fernando Neves,
agradecemos o seu texto, que veio com a observação de ser um contributo para o diálogo, sem a obrigação da publicação. A direcção do jornal entendeu publicá-lo, julgando que corresponderá ao pensamento de outros leitores. Têm chegado outras opiniões, ora favoráveis, ora críticas. Todas são importantes para questionar e melhorar a comunicação que passa pelas páginas deste semanário.
Os seus três comentários são pertinentes, mas, no fundo, não se opõem ao espírito do que tem sido escrito no CV. Concordamos que a evangelização é por essência nova, mas de alguma forma está consagrada a expressão “nova evangelização” (há uma notícia sobre o assunto na página 10), mais para realçar a diferença das circunstâncias do que o conteúdo.
Em relação à entrevista do P.e António Carvalhais (edição de 20 de Julho), ele afirma que está ultrapassada a concepção de que é preciso ver o que acontece na liturgia para que a participação seja plena (de resto, é impossível em grandes celebrações, em Fátima, por exemplo). Isso não significa, de modo nenhum, um regresso a Trento e ao latim na liturgia, embora esse desejo, reconhecemos, exista em alguns católicos.
Sobre as cinco pedrinhas que o leitor diz serem “mágicas”, embora o adjectivo não apareça no texto do Poço de Jacob de 3 de Agosto, sabemos que corresponde a uma espiritualidade talvez mais tradicional, mas profundamente eclesial. A secção assinada pelo P.e Vitor Espadilha tem recebido os mais rasgados elogios e, também, como ele sabe, algumas críticas.
No nosso entender, um jornal diocesano tem de ser feito das diversas sensibilidades eclesiais. Ser católico significa ser “de acordo com o todo”, recusar a exclusão, não ficar pela parte. Tem de ter textos mais sociais e proféticos (para fora do templo) a par de outros mais espirituais e litúrgicos (para dentro do templo). Se ambos forem bons, impulsionarão os leitores em ambos os sentidos, porque a verdadeira espiritualidade cristã é a que leva à solidariedade para com o irmão. E a verdadeira intervenção social cristã é a que leva a tudo oferecer a Deus. Não temos dúvidas de que é isso que se pretende. Se ainda não o conseguimos, teremos certamente (jornalistas, colaboradores e leitores – com críticas e sugestões) de fazer um Correio do Vouga melhor.
O director-adjunto
