Nova evangelização

Estamos habituados, de há uns anos a esta parte, a ouvir falar de Nova Evangelização. É uma ideia, ou melhor, um projecto-desafio lançado pelo Papa João Paulo II, na década de 80, a toda a Igreja. Certo é que, por entre ambiguidades do seu significado, cepticismo crítico, apatia missionária, enquanto alguns se lançaram em busca de concretizações, muitos preferimos esperar para ver o que surgiria de novo. E acabou por parecer a uns tantos que o novo dinamismo, novo impulso, nova linguagem, novos métodos… não tinham vigor suficiente para mobilizar pessoas e comunidades.

1 – Interrogo-me, frequentemente, se a consideração de que é algum motivo interesseiro ou fanatismo o que leva certos grupos a ir pelas portas, anunciando aquilo em que se crê, não oculta o meu respeito humano, a minha falta de convicção, o meu comodismo, face à inquietação de consciência de que é preciso anunciar. Não utilizarei a justa crítica dos métodos, para não me deixar interpelar pela coragem da atitude?

2 – Não é de agora esta ousadia de montar a tenda na praça pública; e cantar anunciando, ou anunciar cantando, o essencial da segura confiança em Jesus Cristo, como sentido pleno da vida e garantia de plenitude futura. Interpelar os passantes sobre as suas convicções de fé e testemunhar as próprias, com sorriso de transparência, já me prendeu várias vezes a grupos de jovens, em tempo de férias, apreciando a sua ousadia, a simplicidade e encanto da sua comunicação, o próprio conteúdo “evangelizador” transmitido.

3 – Na verdade, a ordem do Mestre foi a de ir, ir de diversos modos, por caminhos diferentes, pessoalmente ou em grupos diversificados… e ensinar a todos, comunicar a Boa Nova a todos. Não foi a indicação de esperar que venham, curiosos ou sedentos, à procura do Evangelho. Perdemos o dinamismo do “Ide” ou já nos carregámos de tanta reflexão, tanta elaboração doutrinal, tanto desdobrar de preceitos… que não atinamos com o alegre kerigma “Jesus Cristo, a Quem mataram, ressuscitou, está vivo; e nós somos testemunhas disso”?

Está em marcha o projecto “Evangelização na Cidade”, que vai passar por várias capitais europeias, incluindo Lisboa. Paris, nos últimos dias, foi palco desta ousadia de novo impulso, novos métodos, nova linguagem, mostrando que o Evangelho está vivo, é actual. Que não nos aliena das realidades quotidianas; antes nos faz mergulhar nelas com mais entusiasmo e com outros olhos! O sal não pode ser da medida do mundo; mas não se pode tornar insípido! O fermento não pode ser a mesma quantidade da massa, mas não pode perder o vigor! Se a luz é tão ténue que se não distingue das trevas, de nada nos aproveita!

À escuta, merece a pena abrirmo-nos com humildade ao exemplo que aí está. E recriarmos iniciativas sempre capazes de suscitar a busca em pessoas e grupos, nos indivíduos e nas famílias. Não será ocasião de actualizarmos missões populares, dinamizações bíblicas ou outras, que, não muito distantes de nós, se tornaram o embrião de comunidades vivas, bem distintas da “cristandade”?