Questões Sociais Parece estar desencadeado o processo de preparação de «nova legislação laboral». Como é habitual nestes casos, já se definiram posicionamentos bastante diversificados: existe quem defenda alterações a favor de mais segurança e quem defenda mais flexibilidade; há quem entenda que não vale a pena reabrir este «dossier» tão controverso e quem lhe atribua alta prioridade; e não falta quem se coloque numa posição de expectativa, para depois se pronunciar, em nome dos «seus» bons princípios.
Uma parte significativa dos católicos tem uma especial propensão para se situar nesta última posição: entende que não é dignificante o envolvimento nestas matérias e, quando julgado conveniente, invoca a doutrina social da Igreja para se escudar socialmente e para condenar tudo o que pareça atentar contra as respectivas orientações. Funciona como exterior aos processos e lutas laborais, refugiada nas suas «capelas» religiosas, familiares, profissionais e outras.
Os católicos «expectantes» não se envolvem militantemente nesses processos e nessas lutas, do lado sindical, do patronal ou do estatal. Nem tão pouco dão passos significativos para que as forças, ou parceiros, sociais procurem empenhadamente os entendimentos possíveis.
O laicado católico vive, há décadas, numa apatia social impressionante, a tal ponto que nem sequer acompanha, e por vezes até vilipendia, os esforços realizados na negociação colectiva e na concertação social. Parece apostado em repudiar liminarmente a ideia de constituição de um ou mais movimentos de leigos dedicados ao estudo e debate destes problemas, bem como à formulação de propostas, à prática da influência dignificante a favor dessas mesmas propostas e da dignificação da vida económica e social. O diálogo social, no interior da Igreja, entre trabalhadores (por conta de outrem), patrões ou empresários e outras pessoas envolvidas no mundo laboral constitui uma excepção raríssima, e até uma verdadeira miragem.
Ao contrário da posição expectante e meramente doutrinária, os leigos católicos não se podem considerar figuras angelicais e «mini-papas», a quem só incumbe afirmar princípios, dispensando-se da interacção destes com as realidades e conflitos sociais. Ocorrendo, neste ano, o 40.º aniversário da encíclica «Populorum Progressio», vem a propósito recordar uma das suas linhas de orientação: «os leigos devem assumir como tarefa própria a renovação da ordem temporal (…). Pertence aos leigos, pelas suas livres iniciativas e sem esperar passivamente ordens e directrizes, imbuir do espírito cristão a mentalidade e os costumes, as leis e as estruturas da sua comunidade de vida» (n.º 81 da encíclica). Não se trata de reduzirem a evangelização ao domínio temporal, nem de o dominarem por arremedos teocráticos, mas sim de serem coerentes em todas as dimensões das suas vidas; coerentes com a sua doutrina e com as realidades sociais.
