Isilda dos Santos Alves, 62 anos, e o seu marido, Ovídio Rodrigues, de 63 anos, são dois dos 15 habitantes de Corgo de Baixo. Tiveram de começar, depois dos 60 anos. “Não ficou um garfo, uma faca, nada. O fogo levou tudo. Fiquei com a roupa que tinha vestida”, conta Isilda Alves ao Correio do Vouga.
Já habituada a relatar a jornais, rádios ou televisões, as dificuldades por que passou após o incêndio de 18 de Setembro de 2005, Isilda Alves desenrola com celeridade a lista dos bens que perdeu. Em primeiro lugar, o gado: três porcos, 20 coelhos, 15 ou 16 galinhas. “Escaparam as ovelhas”, refugiadas num canto do curral. Depois, as colheitas: 50 rasas de milho (cada rasa equivale a 20 litros), 15 rasas de avião, 200 arrobas de batatas, dois tonéis e uma pipa, de 61 e 65 e 30 almudes de vinho “acabado de tirar do lagar”. A seguir, os bens como a motorizada do marido, as roupas, os utensílios. Por fim, uma das perdas mais dolorosas: um cão. “O que andava à solta escapou. O outro estava preso”.
Sobre o recomeço, a habitante do Corgo de Baixo confessa: “Foi pior do que quando casei. Nessa altura ganhava cinco ou seis escudos, mas tinha lençóis e tudo o que precisava para mim e para ele [o marido]”.
Solidariedade inesperada
Depois do incêndio, o casal morou em casa de um filho, em Belazaima do Chão. Mas só durante oito dias. Logo que pôde regressou ao Corgo, para a casa intacta e desabitada de um familiar. Não há nada como a nossa terra. E recomeçou a vida: uns ofereceram 25 pitos e um saco de farinha, outros ofereceram coelhos, outros ainda quatro porcos, mas também o telhado para a casa nova e outros bens. “Nunca julguei haver tanta gente boa, por fazerem o que nos fizeram. Isto é que é a realidade”, diz Isilda Alves. Quanto à casa nova, que vê crescer com alegria, não no lugar da velha, mas noutro espaço que é seu, só tem pena de não ter tido uma assim, “tão grande”, quando se casou.
