Nunca menos do que isso

Dias Positivos Li algures, num livro de gestão, que quando surgiram as primeiras empresas multinacionais os modelos que tinham para se organizarem provinham de dois lados: do exército e da Igreja. Com os exércitos, as empresas aprenderam a forte estrutura de comando. Com a Igreja aprenderam a focalização em objectivos concretos e a dispersão organi-zada pelo mundo. Na verdade, a Igreja é multinacional desde o “ide e anunciai a todos os povos”. E é isso que quer dizer “católica”.

Por ser “mãe e mestra”, com a Igreja aprende-se muito. Mas quem a constitui – nós – não se pode apegar a essa expressão e pensar que está tudo garantido. Se as em-presas aprenderam com a Igreja, hoje é tempo de aprender com as empresas. Dou alguns exemplos.

Diz-se, por exemplo: “Na Igreja não somos meros profissionais”. E é claro que não. Na Igreja somos irmãos. Mas quando se trata de serviço para os outros, para a comunidade, temos de ser muito mais do que profissionais. Ser profissional é o mínimo exigível. E invocar o “não profissionalismo” de quem serve na Igreja (paróquias, catequeses, jornais ou o que quer que seja) só faz sentido para exigir mais do que isso. Nunca para baixar a bitola da exigência.

Diz-se, por exemplo: “A Igreja não é uma democracia”. Claro que não. Os dogmas não vão a eleições. Mas o pensar e sentir do povo conta – também para a definição de dogmas. A história prova-o abundantemente. A Igreja não é democracia, porque tem de ser muito mais. Mas os modos de participação democrática, nos nossos níveis de igreja (grupos, comissões, conselhos…), têm todo o cabimento. A discussão aberta e alargada, a circulação da informação, a separação de poderes e funções, a delimitação dos poderes no espaço e no tempo, a transparência, a prestação de contas – tudo características do poder democrático – são imprescindíveis para melhor ser Igreja. Nunca menos do que isso.

Diz-se, por exemplo: “A Igreja transmite a graça, não produtos de consumo”. Sim, a graça de que ela não é dona mas administradora. Acontece é que somos consumidores de tudo e também de religião. E a graça administra-se pelos serviços da Igreja. Não são produtos como os outros. Mas, no mínimo, têm de ser bons produtos. E a qualidade dos produtos religiosos deixa muito a desejar.

Hoje todas as empresas querem ser certificadas e cumprir as normas de qualidade e de respeito pelo ambiente. Se houvesse normas de qualidade para os produtos religiosos (celebrações, sacramentos, publicações, reuniões…), se fossem medidos pelo grau de satisfação dos clientes-fiéis, quantos passariam nos testes?

Bem sei que posso estar a alarmar algum espírito com esta “economização da fé”. Não é disso que se trata. No meio da organização e exigência, haverá sempre espaço para a gratuidade, para a surpresa do Espírito. Acontece é que se não aumentamos a qualidade daquilo que oferecemos, vão procurar noutra loja. E, pior do que isso, estamos a enterrar talentos. E já devíamos ter aprendido com a parábola dos talentos que os maus administradores apanham um puxão de orelhas do patrão. Nunca menos do que isso.