“O alcoolismo semeia lágrimas”

Centro de Alcoólicos Recuperados do Distrito de Aveiro “Pensando bem… o alcoolismo semeia lágrimas, extingue a alegria e converte o lar num cárcere de tortura.” Estes são apenas alguns conceitos com que se pretende chamar a atenção para os malefícios do abuso do álcool. No Centro de Alcoólicos Recuperados do Distrito de Aveiro (CARDA), onde os lemos, procurámos quem nos elucidasse sobre o caminho a seguir para deixar essa terrível doença que é inimiga do homem, da família e da sociedade.

Mário Soares, presidente da Direcção do CARDA, um alcoólico recuperado, não esconde o seu passado nem a alegria que sente em ajudar os que se encontram dominados pela bebida. E não deixa de nos revelar que por esta IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) já passaram, desde Maio de 1999, 350 alcoólicos, dos quais 60 por cento se encontram recuperados, 15 por cento estão em fase de recuperação e 25 por cento são utentes do Centro Regional de Alcoologia de Coimbra.

No CARDA, os doentes aparecem voluntariamente, por iniciativa de familiares ou de outras instituições, nomeadamente hospitais. A maioria não se apresenta com muita convicção. Alguns vêm “apalpar o terreno” e logo são recebidos pela técnica do serviço social, que faz o historial da situação. Uma psicóloga analisa o caso e procura a melhor solução para ajudar o doente, iniciando-se de imediato o processo de apoio.

Normalmente, todos são encaminhados para a desintoxicação em Coimbra, com internamento de três semanas. E no regresso, para além do acompanhamento que o CARDA presta, os doentes passam a frequentar as reuniões terapêuticas que integram alcoólicos recuperados. São encontros onde os mais experientes tentam transmitir o seu esforço de recuperação e os frutos positivos que dele recebem.

“Estas reuniões levam os doentes a falar sem medo, sem vergonha e sem complexos dos seus problemas, das suas dificuldades na família e nos meios que frequentam”, frisou Mário Soares. Recebem o estímulo dos que passaram pelas mesmas situações, aceitam garantias de ajuda para continuarem a lutar contra a doença, sabendo-se à partida “que o alcoolismo não tem cura, sendo, no entanto, possível viver com ele”, afirmou o nosso entrevistado.

A força de vontade, o acompanhamento do CARDA, da família e dos bons amigos e, sobretudo, a abstinência total são indispensáveis para que o que sofre do alcoolismo possa recuperar e passar a levar uma existência normal, “sem fugir da vida, das festas, dos casamentos, das adegas”, lembrou Mário Soares. E acrescentou: “o mais importante é a pessoa assumir que é alcoólica e acreditar que, para ser feliz, não pode beber.”

O CARDA, que tem uma despesa mensal de 5000 euros, recebe da Segurança Social apenas 2700 euros por mês e para cobrir o défice tem contado com contributos das Câmaras Municipais de Oliveira de Azeméis, Albergaria, Vale de Cambra e de São João da Madeira, bem como das Juntas de Freguesia da Glória e da Vera Cruz. Há ainda contribuições de alcoólicos recuperados e de algumas pessoas de boa vontade. Porém, as dificuldades e as despesas são enormes. Daí que a instituição necessite, urgentemente, de mais apoios, para ajudar mais doentes.

Mário Soares, presidente do CARDA

Um vencedor

Mário Soares, presidente do CARDA, fala da sua experiência sem complexos. É um alcoólico recuperado. Começou a beber aos 20 anos, em Angola, no serviço militar. Como tantos outros que conhece. Nessa altura, nunca assumiu a doença.

Teve um acidente de viação, grave, que provocou a morte de um indivíduo de 38 anos, com oito filhos. “Se não bebesse, estou convencido de que o teria evitado”, disse.

Passou por vários empregos, nunca se tendo fixado em nenhum. Era extremamente violento com a família e tudo quanto tinha perdeu por causa do álcool. “Fui mau pai, mau marido e um outro acidente levou-me a acordar para a realidade”, disse. “Convenci-me de que o álcool me estava a destruir”, acrescentou.

Ajudaram-no a organizar as suas ideias, passou pela desintoxicação e recebeu, desde sempre, o carinho e apoio da família, “que foi excepcional”. E hoje considera-se um homem feliz, porque já conseguiu restituir à família parte do que dele sempre esperou e ainda ajuda os que sofrem como ele sofreu. E só tem uma grande mágoa. A de ter perdido os melhores anos da sua vida com o vício do álcool.