O amor vencerá?

Poço de Jacob – 124 Diz S. Paulo no discurso da caridade, na sua primeira carta aos Coríntios, cap. 13, que a caridade não acaba nunca. Vencerá. Acredito que aí reside o triunfo do Coração Imaculado de Maria anunciado em Fátima. Ou o que diz a Sagrada Escritura, que o último inimigo a ser aniquilado é a morte. O ódio é o que mais semelhante à morte o homem pode sentir. Depois de ter falado do triunfo do Amor em Auschwitz (ver Poço de Jacob – 123), talvez incompreensível para os que passam a vida a interrogar Deus, e consciente que de pequenos gestos fazem e forjam civilizações, ainda que impercetíveis ao nosso olhar clínico e, por vezes cínico, ocorre-me lembrar que, segundo a teologia e a espiritualidade católica, não há atos indiferentes.

Tudo concorre para o progresso ou o retrocesso dos homens, no mistério da comunhão dos santos e no mistério do Corpo Místico de Cristo, também bem explicado por S. Paulo. As coisas mais pequenas podem ter consequências gigantescas. Santa Teresinha acreditava que com os pequenos gestos de amor para com suas irmãs, no convento de clausura, estava ajudando missionários no mundo exterior… E Pio XII disse que é um mistério profundo que a oração e os méritos de uns poucos sirvam para a salvação de muitos, senão de todos.

Há dias, na igreja de onde eu sou pároco, duas mulheres de vida apostólica discutiam terrivelmente, aos gritos, ouviam-se na rua, por um desentendimento sobre – imaginem – um vaso de flores para o Senhor. Escândalo puro, pelo lugar que não respeitaram, pelo tom de voz, pois eram irmãs em Cristo e de apostolado, e pelo que causaram nos que, estupefactos, contemplavam a cena dantesca. E casos como esse eu presenciei ao longo de toda a vida de padre. Por ninharias. Se o trabalho na Igreja for para compensar algum truama ou estiver ligado a um desejo de poder não se serve o Senhor, mas o ego, o amor-próprio exacerbado que se esconde em capa de doença.

Na mesma semana, ao visitar um santuário perto daqui, vi as flores podres nos vasos. Na minha paróquia eu próprio as tiro se houver negligência em cuidar do templo. Comentei que deveria certa pessoa presente retocar e dar um jeito nas flores, pois era só terça-feira e até sexta faltavam dias. O calor era muito… E recebi de resposta: “Deus me livre! Se ponho a mão em jarras e toalhas, a guerra civil fica montada pela senhora que cuida do santuário, que reza o terço diante das flores podres em honra de Maria e não permite que alguém toque no monumento”. E como este, centenas de gestos diários na família, no emprego, na igreja, no presbitério, etc. Estamos perante gestos de orgulho e amor ferido, traumas e petulância de quem diz servir o Senhor enquanto isso lhe traz algum prestígio. As paróquias estão cheias de gente assim generosa… E o mundo também… E eu próprio já me vi assim, repugnante, uma vez ou outra… E pergunto-me: se os pequenos gestos de amor podiam vencer a força esmagadora do ódio de um Auschwitz ou de outras guerras e prisões da história de injustiça do mundo, como podemos fazer, com nossos pequenos gestos, para que o amor triunfe e nunca acabe, na terra onde vivo e na Igreja onde trabalho e rezo, ou no emprego? O Amor acabará? Faço eu algo para que ele dure e vença? Já viram a força do ódio nas grandes e pequenas coisas impercetíveis, a sua torrente de destruição progressiva do que o homem tem de mais belo e digno? A resposta só eu posso dar, na minha vida, preocupado com que ele triunfe em mim, como tão bem nos ensinou Teresa de Lisieux. E então, sim, porque nenhum ato é indiferente… A minha força vai levantar o mundo e meu amor, com o de muitos outros, moverá o curso da história. E o rosto do Deus Amor vai-se mostrar em toda a sua beleza.

Vitor Espadilha