O Leitor pergunta Porque é que Jesus foi baptizado? Precisava?
Se foi baptizado, é porque precisava. Ou, pelo menos, quis precisar. Compreende-se a pergunta do leitor. E vem mesmo a calhar porque na próxima segunda-feira celebra-se a festa do Baptismo do Senhor, que encerra o ciclo do Natal. Quando a Epifania, que em Portugal é celebrada sempre ao Domingo, cai a 7 ou 8 de Janeiro, o Baptismo do Senhor celebra-se na segunda-feira seguinte.
Se o baptismo perdoa os pecados, Jesus não precisava de ser baptizado – esta é a dificuldade tradicional na compreensão do baptismo de Jesus. Temos, no entanto, de fazer algumas distinções entre 1) o baptismo dado por João, que ficou com o apelido “Baptista” porque fazia “submergir” (em grego, “baptizein”) no Jordão quem a ele se dirigia, 2) o baptismo recebido por Jesus e 3) o baptismo dos cristãos.
João Baptista administrava o baptismo nas águas do Jordão a todos os que escutavam as suas palavras de penitência e confessavam os seus pecados com arrependimento. O rito de João não é completamente original. Mergulha nas práticas judaicas do Antigo Testamento. Basta pensar nos banhos rituais dos fariseus (constantemente preocupados em lavar as mãos, por exemplo, não como prática higiénica, mas como rito de purificação) ou no Salmo 51: “Lava-me e ficarei mais branco do que a neve”. E sabe-se hoje que havia judeus que praticavam um baptismo não resultava de uma espécie de magia, mas do esforço pessoal. Outro aspecto fundamental é que o baptismo de João anuncia o Reino, enquanto o baptismo cristão implica a inauguração do tempo do Espírito, o Reino concretizado. Daí que os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos distingam entre baptismo com água (João) e baptismo com espírito ou no fogo (baptismo cristão).
Como pode, contudo, Jesus receber o baptismo de João, que era para “remissão dos pecados”? Mc 1,9-11 e Mt 3,13-17 narram o baptismo de Jesus às mãos de João Baptista. Lc 3,21-22 refere o acontecimento quando João já está na prisão. E Jo 1,29-34 recorda a vinda do Espírito sobre Jesus sem mencionar o gesto da água. Veremos na próxima semana que o baptismo de Jesus tem pelo menos três leituras – para inauguração do ministério profético de Jesus, para “cumprir toda a justiça” (isto é, fazer a vontade de Deus), e como identificação com a humanidade. O baptismo de Jesus é que será, depois, o protótipo do sacramento cristão.
J.P.F.
