Revisitar o Magistério 1 – O Mistério do Bispo
a – Dom oferecido à Igreja, o Bispo é, antes de mais, um baptizado. Mas, como Jesus escolheu doze de entre os muitos discípulos que O seguiam, o Bispo, “cristão com os cristãos”, é “Bispo para os cristãos”.
Ao Bispo cabe a responsabilidade primeira de comunicar o amor de Cristo pelo exercício da tríplice missão: anunciar a Boa Nova a todas as nações; santificar os que acolhem a salvação, pelos sacramentos; conduzir o Povo de Deus, pelas estruturas de serviço.
a – A efusão do Espírito sobre os Apóstolos é comunicada aos seus sucessores pela imposição das mãos (Cf. 1Tm.4,14; 2Tm.1,6-7). Pela ordenação episcopal, plenitude do sacramento da ordem, participação ontológica na vida e missão de Jesus Cristo, chega até nós o ministério do próprio Cristo.
c – A vida de Jesus Cristo é trinitária. Ele é o Filho unigénito do Pai, o ungido do Espírito Santo, enviado ao Mundo. Com o Pai, envia à Igreja o Espírito.
O Bispo é ícone do desvelo do Pai por todo o povo santo. Como Cristo é ícone original da solicitude do Pai, o Bispo será, na Igreja que lhe é confiada, sinal vivo do Senhor Jesus. Pela unção do Espírito, está habilitado a ser o ânimo da Igreja.
2 – O ministério do Bispo
a – Mestre e arauto da Palavra – O dever de anunciar o Evangelho pertence a toda a Igreja e a cada um dos baptizados. Todavia, ao Bispo cabe, pela Ordenação Epis-copal, este múnus de pregar, “com a fortaleza do Espírito Santo”. Mais: conduzir as pessoas à fé ou nela as fortalecer é uma manifestação exemplar da sua paternidade.
A Palavra envolve e guarda o ministério do Bispo. Impondo-lhe sobre a cabeça o Evangeliário no ritual da ordenação, quer-se significar que ele deve ser ouvinte atento e sedento dessa Palavra, para a guardar fielmente e a ensinar corajosamente, com a tarefa autorizada de a discernir, no caminho da verdade.
“Uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, nem integralmente pensada, nem fielmente vivida”. Por isso o Bispo, considerando os valores culturais da comunidade onde vive a Igreja que pastoreia, há-de pôr todo o seu empenho no anúncio integral do Evangelho dirigido ao cerne dessas realidades culturais, para plasmar o coração e os costumes do seu povo.
Seja o Bispo sempre consciente de que o nosso mundo só acolherá os mestres que sejam coerentes, isto é, que alicercem o seu anúncio na proclamação silenciosa do seu exemplo.
b – Ministro da Graça – A santificação do cristão realiza-se na regeneração baptismal, é corroborada pelos sacramentos da Confirmação e Reconciliação e alimentada pela Eucaristia, o bem mais precioso dado à Igreja.
O ministro desta santificação é o Bispo, especialmente pela presidência das celebrações peculiares do seu ministério episcopal, mediação da graça divina, que “permeia toda a vida dos filhos de Deus, ao longo da sua caminhada terrena”. As celebrações litúrgicas hão-de ser verdadeira epifania do mistério, especialmente na igreja catedral, a Igreja-mãe, centro espiritual concreto de unidade e comunhão do presbitério e de todo o Povo. Aí, o Bispo se apresenta à assembleia dos fiéis como aquele que preside no lugar de Deus Pai e se vive, de modo sensível, a comunhão da mesma Eucaristia, da mesma oração, ao redor do único altar, com a participação da diversidade.
“O ministério de santificação do Bispo tem por objectivo a santidade de todo o Povo de Deus, que é dom da graça divina e manifestação do primado de Deus na vida da Igreja”. A santidade constitui, hoje, a credibilidade do cristianismo, quer por aqueles que são apresentados como norma dessa mesma santidade, quer por aqueles que, veladamente, fecundaram e fecundam a história dos homens. Aos Bispos se encoraja que procurem identificar e pôr em evidência os sinais de santidade dos nossos tempos – que serão sinais de esperança para todos e encorajamento para a caminhada do Povo de Deus.
c – Pastor solícito – Governar a família de Deus e assumir o cuidado habitual e quotidiano do rebanho do Senhor Jesus é estar no meio do povo como pai e pastor, como “quem serve”, tendo sempre presente a imagem do Bom Pastor. É fazê-lo crescer, por meio do Evangelho e da Eucaristia, como realidade de comunhão no Espírito Santo. Também a sua autoridade e o seu poder sagrado estão ao serviço deste crescimento.
Uma autoridade que brote do testemunho, de credibilidade moral, de estilo de vida apostólico – uma forma de vida oblativa, terna, misericordiosa, de solicitude constante, uma vida humilde, com predilecção pelos mais débeis. O ícone desta autoridade é o lava-pés – o episcopado é uma honra quando é um serviço.
A comunhão eclesial reclama do Bispo um estilo pastoral cada vez mais aberto à colaboração de todos, o seu apoio nos órgãos de consulta diversificados, no discernimento dos carismas e no cometimento de funções e ministérios…
O Bispo é o responsável pela realização da unidade na diversidade, o artífice da comunhão orgânica, favorecendo a sinergia entre os diversos agentes, de modo que seja possível percorrerem juntos o caminho comum da fé e da missão, sabendo que o agente último desta comunhão orgânica é o Espírito, quer pela mediação da responsabilidade pessoal do Bispo, quer pela participação de todos os fiéis. A construção da comunhão orgânica gera, ela própria, uma espiritualidade de comunhão.
O ser para os outros não desenraíza o Bispo de ser com os outros fiéis. O que não invalida, entretanto, um inequívoco direito-dever de governo. “Fará todo o possível por ter o consenso dos seus fiéis, mas, em última análise, há-de saber assumir-se a responsabilidade das decisões que resultarem necessárias à sua consciência de pastor”…
O Bispo plasmará a Igreja que serve, por um cuidado, uma relação, uma proximidade e apoio: ao presbitério, corpo que com ele vive uma especial relação sacramental e é, especialmente pelos párocos, o grupo de colaboradores mais íntimos; ao corpo diaconal, dom de Deus para participar no anúncio do Evangelho e no serviço da caridade; às pessoas de vida consagrada, cuja vocação e missão pertence, estável e firmemente à vida e santidade da Igreja; aos leigos, no seu direito e dever de apostolado, especificamente secular; à família, a promover e defender como célula fundamental da sociedade e verdadeira Igreja doméstica; aos jovens, ânimo do presente e garantia do futuro da Igreja, especificamente no zelo pela pastoral juvenil e vocacional.
Querubim Silva
