Fiz uma lista de assuntos sobre os quais gostava de escrever: o bolo de chocolate da Clara; os pulmões do Miguel e os textos da Margarida. Agora, resta-me resolver o problema de os encadear para que esta crónica tenha coerência e transmita uma ideia lógica.
Do bolo de chocolate, revelo que o bolo “residente” das últimas festas tem sido um que a Clara faz num abrir e fechar de olhos e que é uma verdadeira delícia. Noutro dia, comentava este facto com algumas amigas, quando uma me disse que também faz esse bolo e que se tornou obrigatório, de tão saboroso que é. Quando o apresentou pela primeira vez, comeu-se num instante. Ah! Lembrei-me que ela já contara aquela história.
O segundo apontamento tem a ver com os pulmões do Miguel. Nos últimos dias, deram que falar. Ele descobriu que tem dois pulmões e conta a toda a gente, apontando com as duas mãozinhas para a cavidade torácica: “Os meus pulmões estão aqui, os pulmões do papá também, os teus pulmões também; os pulmões de tooodas as pessoas do mundo estão aqui; mesmo que as pessoas sejam de cores diferentes, têm dois pulmões. Tooodas as pessoas, grandes e pequenas, têm dois pulmões.”
No final do ano lectivo, há sempre muito para contar. Aqui fica uma nota simples: fazendo uma análise dos três anos que agora terminam um ciclo de estudos, a Margarida comentou que os textos que escrevia no 6.º ano eram “uma chachada”. Agora, nota uma evolução tão grande que declara cheia de brio “Estou orgulhosa dos meus textos!”
Depois dos três apontamentos, vem o essencial que queria aqui trazer à reflexão. Quando lhe confessei a minha impotência para explicar a razão pela qual não se deve deitar comida fora ou gastar água desnecessariamente, o meu amigo sacerdote, que viveu os últimos anos em Angola, foi peremptório “Isso não se explica. Vive-se.” (Ele aprendeu a usar apenas um balde de água para a higiene diária: barba, dentes, banho e wc.) Mas, pensei, não posso levar os alunos a África, ou até aqui perto de nós, no nosso país, no nosso bairro, onde há quem viva situações de grande privação. Não lhes consigo fazer perceber que os euros que gastam nos telemóveis (dos mais caros que há no mercado), ou para irem comer fora, ou para as chicletes que, à entrada da minha aula, têm de deitar no lixo, é dinheiro que deveriam poupar.
Todavia, posso e devo provocar o debate com histórias curtas para que, entre eles, argumentem e passem uns aos outros uma noção de ética, de respeito por si, pelo próximo, pelos seres vivos e pelos bens. O importante será desencadear a dúvida, tirá-los da inércia em que parecem viver, apesar da contestação própria da idade, que se preocupa, na maior parte das vezes, com assuntos laterais e ideias nada essenciais. O importante é colocar a pergunta certa para que cresçam e vão mais longe.
Que bom seria que, como a Margarida, se orgulhassem do percurso palmilhado e olhassem para ele com o encanto de quem descobre que é capaz de fazer cada vez mais e melhor. Se é gratificante ver os alunos em provas finais, desportivas, de dança, em festivais, em concursos, em representações, nos saraus das escolas, cujos lucros são nulos, numa contabilidade em que o capital passivo poderia ser muito alto, se o capital activo que é o envolvimento de alunos, pais, pessoal não docente, professores e autarquias não fosse tão grande, o maior orgulho é capaz de residir no facto de um aluno perceber o seu trajecto na escola e sentir orgulho no desenvolvimento intelectual e humano que ali concretizou ao longo de anos.
E por que é que comecei pelo bolo de chocolate? É que só quando o provei é que percebi o quão delicioso ele era. A história que a minha amiga me contara era uma simples história que a minha memória arrumara cuidadosamente num recanto e que nem sequer despertara ao provar o bolo da Clara. Mas, mais tarde ela tornou-se realidade, tal como as histórias que se contam aos alunos, que os ajudam a cultivar valores que apontam caminhos de referência para construirmos um mundo melhor. Que bom seria se não perdêssemos a atenção e convicção dos cinco anos do Miguel que, apesar de nunca ter visto os seus pulmões, tem a certeza de que eles existem e de que todas as pessoas os têm.
