A Árvore de Zaqueu Baptismo do Senhor (ano C)
Mais coisa menos coisa, Jesus foi baptizado aos trinta anos por S. João («o baptista»). Como um caloiro, ao entrar no novo campo do projecto de vida, submeteu-se a um rito de iniciação: sem passar por este, o novo membro não é aceite nem se reconhece na comunidade em que se pretende inserir.
Assim realizou o primeiro acto da sua carreira: anunciar o «reino de Deus» – essa nova maneira de viver a vida de braço dado com o mais fiel e o mais desconcertante dos amigos. Jesus viu nesse amigo um pai sempre atento mas sempre discreto, deixando-nos todo o espaço de manobra. Talvez por isso não teve medo para falar e agir com uma autoridade tão genuína e tamanha que espantou a quantos se cruzaram com ele.
O texto grego original de S. Lucas permite uma reflexão muito pertinente: João baptizava «pela» água (instrumento do ritual); Jesus, porém, baptizará «no» Espírito Santo – não é uma coisa exterior mas a realidade em que todo o universo está inserido e por ele vivificado. Jesus despertou-nos a consciência para essa dimensão, que nos permite abrir os olhos para ver melhor – e assim gozar mais intensamente de tudo o que a vida tem de bom.
Acrescenta o mesmo evangelista que Jesus também baptizará pelo fogo, símbolo universal de uma força divina que transforma e purifica. S. Lucas falará de «línguas de fogo» que desceram sobre os discípulos, depois da ressurreição de Cristo, ateando a coragem de continuar a sua mensagem; mas o fogo também significa as provações a que a vida nos sujeita. Todos nós podemos receber um ou mais «baptismos de fogo», que nos dão a têmpera e aptidão para levar em frente, com livre decisão, os projectos para que nos sentimos chamados.
Quando o projecto começa a tomar forma, temos que descer humildemente entre a multidão e submetermo-nos ao rito de iniciação. Se o não fizermos, ficaremos mais facilmente vulneráveis à tentação de poder e de orgulho. Sem a «fome e sede de justiça», sem convívio sincero com os outros, a vida mais esplendorosa e invejada será inútil como a palha que o vento leva e o fogo destrói.
No baptismo de Jesus, o próprio Baptista confessou ser ele quem devia ser baptizado por Jesus. Mas Jesus insistiu em que não havia regalias para ninguém…
Quantos grandes empresários, altos dignitários religiosos, políticos, «directores» disto e daquilo… saberão reconhecer, como João Baptista, os dons superiores de alguém que venha ter com eles? Quantos serão capazes de ajudar os outros a multiplicarem os seus talentos, sobretudo quando isso implica ir-se retirando do primeiro plano?
Na 1.ª leitura, aparece o primeiro dos quatro poemas do «servo de Javé», essa figura misteriosa, difícil de identificar – provavelmente retrata o profeta seu autor ou outra figura religiosa impressionante. (Isaías viveu no séc. VIII antes de Cristo; um discípulo espiritual, já 2 séculos depois, é que terá composto os capítulos 40-55 – conhecidos como «O Livro da Consolação», devido ao tema dominante de Deus como salvador). A profundidade e alcance religiosos destes quatro poemas fizeram deles a grande prefiguração de Jesus como «servo perfeito» e «filho muito amado».
Na 2.ª leitura, S. Pedro, o chefe dos apóstolos, reconhece o erro do preconceito relativamente a cristãos não judeus, pois verifica como Deus se comunica aos seres humanos «sem acepção de pessoas». Foi só depois de ter meditado, que aceita entrar na casa do «pagão» Cornélio – não, porém, sem ter o cuidado de se justificar perante os cristãos de vistas estreitas…
Porém, o tema comum que sobressai é o da justiça – que «não apaga a torcida que ainda fumega», mas que se procura impor «sem desfalecer nem desistir»; a justiça que devemos tornar presente no mundo, se queremos agradar a Deus.
Nos ritos actuais do Baptismo, sobretudo no das crianças, sobressai a importância de o compromisso pela justiça ser conscientemente aceite pelos pais, padrinhos, e toda a comunidade envolvente.
É portanto a comunidade que está em jogo. Ao longo da nossa vida, e particularmente nos momentos difíceis e de grande sofrimento, como quando a morte se parece anunciar, é nesta comunidade que deveríamos encontrar a força de caminhar juntos no misterioso projecto da vida, sem desfalecer no caminho da justiça e procurando as estratégias mais engenhosas para a implementar. Deixamos assim às novas gerações o testemunho de que «vale a pena viver».
Manuel Alte da Veiga
