A Árvore de Zaqueu Mais coisa menos coisa, Jesus foi baptizado aos trinta anos por S. João («o baptista»). Como um caloiro ao entrar no novo campo do seu projecto de vida, submeteu-se a um rito de iniciação: sem passar por este, o novo membro não é aceite nem se reconhece na comunidade em que se pretende inserir.
Ao longo da vida, todos nós recebemos um ou mais «baptismos de fogo»: são a prova da coragem e aptidão para levar à frente, com livre assentimento, aquilo para que nos sentimos e fomos chamados. Mas há frequentemente súbitas mudanças de rumo, e de novo temos que nos pôr à prova. Só assim podemos acabar os nossos dias com a consciência de termos feito o nosso melhor para cumprir o projecto, nascido ou não de uma espécie de chamamento transcendente.
Se vasculharmos a vida das pessoas que sobressaíram na história do Bem, encontraremos quase sempre um momento particularmente significativo – verdadeiros baptismos, que marcaram o início de uma actividade mais comprometida na «vinha de Deus».
Mas a vida está cheia de baptismos menos solenes mas não menos eficazes: uma nova amizade, uma viagem, um novo amor, golpes de sofrimento… podem marcar a procura e descoberta de novas respostas e compromissos.
Jesus insistiu em receber «o baptismo de João», que era um acto de arrependimento e de conversão, apesar da reacção do próprio Baptista, que afirmava ser ele quem devia ser baptizado por Jesus. Entrando nesse esquema, Jesus começou a cumprir a estranha vocação do «servo de Javé»: Na verdade, ele – o servo de Javé –sofreu o resultado dos nossos crimes (Isaías 53, 4-5). E assim como Deus glorificou este «servo», também dotou Jesus do seu «espírito» (sopro divino que tudo renova), dando-lhe o estatuto de «o filho muito amado».
Mas para isso teve que se misturar com o povo que pretendia servir. À sua semelhança, na medida em que pretendemos servir os outros, todas as nossas experiências nos levarão a conhecer por dentro e viver os problemas à nossa volta.
(O primeiro dos quatro poemas do «servo de Javé» aparece na 1.ª leitura: é uma figura misteriosa, difícil de identificar. O autor destes cantos não é o profeta Isaías (que viveu no séc. VIII antes de Cristo), mas algum seu discípulo espiritual, muito mais recente (do século VI, aproximadamente). Surgiu assim «O Livro da Consolação» (capítulos 40-55), em que o tema dominante é Deus como salvador).
Quantos políticos, directores de empresas, altos dignitários religiosos, professores universitários… saberão reconhecer, como João Baptista, os dons superiores de alguém que venha ter com eles? Quantos serão capazes de ajudar os outros a multiplicar os talentos, sobretudo quando isso implica deixar para eles o primeiro plano?
Na 2.ª leitura, S. Pedro, o chefe dos apóstolos, reconhece o erro do preconceito relativamente a cristãos não judeus, pois verifica como Deus dá o seu Espírito «sem acepção de pessoas», e em qualquer nação. Precisou desta meditação, para entrar na casa do «pagão» Cornélio (mas lá teve que se justificar perante muitos cristãos de vistas estreitas…).
E de novo entra em palco, como figura principal, a justiça.
A justiça que «não apaga a torcida que ainda fumega», mas que se procura impor «sem desfalecer nem desistir» (1.ª leitura). A justiça que devemos tornar presente no mundo, se queremos agradar a Deus (2.ª leitura). A justiça, enfim, que é o próprio plano de Deus a realizar dentro dos condicionalismos históricos (evangelho), suportando os revezes com a coragem de quem colabora com Deus.
Ao contrário do que se passava no tempo de Jesus, hoje em dia é mais tradicional o baptismo infantil: acaba por ser um rito social e religioso, em que os verdadeiros comprometidos são os pais, os padrinhos, e toda a comunidade envolvente.
É nesta comunidade que, particularmente nos momentos difíceis, de grande sofrimento ou como quando a morte se parece anunciar, deveríamos encontrar o «espírito» de força e de amor para caminhar juntos no misterioso projecto da vida.
Manuel Alte da Veiga
