O carteiro toca duas vezes e conversa sobre o «Correio do Vouga» de 16 de Janeiro

O nosso jornal Está a ver? Até Bento Domingues (22) diz aquilo que a gente já disse muitas vezes: as universidades católicas, com as suas escolas de economia e finanças, têm que ser capazes de imaginar alternativas para o actual cenário político e económico. E para que é que a nossa universidade católica tem até fama internacional nesses assuntos? Pois diz muito bem: todos nós falamos muito mas fazemos pouco. Ora até «pequeninas» acções justas (veja os «Olhos na rua» da última página), que não nos empobrecem, ajudam e muito a formar o apreço e a vontade firme por uma sociedade justa: elegendo os nossos representantes políticos, sem nos deixarmos levar por cantigas – e que bem cantam todas as bancadas! São cantigas que nos embalam e adormecem, para que a gente feche os olhos à má gestão, roubos e enganos (22) da parte de quem se diz só querer o nosso bem. Saberão eles o que é o bem? Dão exemplo de quererem o bem comum? Não lhes faria mal uma formação a sério numa universidade católica a sério…

O velho tema da educação, não é? É que a educação mais sólida é a que é feita no correr do dia-a-dia (24), no apreço pelos outros, que se revela no trabalho a sério, no convívio alegre, nos «obrigados» e boas maneiras… Como nós nesta conversa, então! É por estas e outras acções sólidas que a gente reconhece os valores sólidos – e que esta solidez não é dada numa cartilha mas numa reflexão continuada (estamos nessa, não estamos?).

Mas não me diga que basta «ter fé»! A fé não é nenhuma receita escrita ou bandeirinha para acenar em manifestações. Não acha melhor olhar para a fé como uma sempre nova decisão pelo que é melhor, tomando balanço para enfrentar a vida inteira? É isso: o sentimento da nossa morte alimenta o grande acto de fé que vê que vale a pena viver e que a vida «inteira» assenta no Deus para quem ninguém morre, como podemos ler nos evangelhos de Lucas (20,38) Marcos (12,27) e Mateus (22,32). Esta fé para caminhar, de que nos deu exemplo Jesus no seu baptismo (7). É claro, a fé tem que ser alimentada! Mas só com sentimentos e palavras lindas não vamos longe… Diz muito bem: precisamos de uma «ginástica» da fé. Também acho que o grande alimento é a ginástica de acções com fé, mas sem a ginástica do pensamento perdemos o bom caminho – lá se diz que S. Gonçalinho não ajuda quem joga pouco! (11).

Pois, por isso é que se pode dizer que não precisamos de um novo concílio (2,3). Eu até já li muitos dos chamados «documentos conciliares», e olhe que aquilo é como a boa comida – dá fome de muito mais! Porque o Concílio também não tem a resposta para tudo (nem a Bíblia!). Mas dá-nos um bom pontapé para partirmos para a vida como gente crescida…

E é assim que o Aquário dos Bacalhaus (9) nos faz mergulhar no mistério da história humana. Porque somos animais conscientes e cultos é que podemos dar sentido positivo a todos os fenómenos do universo, descobrir como usar dos bens da criação para construir um mundo cada vez mais justo… Está bem, está bem, não é altura para grandes filosofias, mas diga lá que a beleza não é um bom alimento da fé!

M.A.V., o Carteiro

(que não distribui o acordo ortográfico)