O cavalo cura

Jornadas sobre equitação terapêutica em Cacia O cavalo exerce um fascínio “instintivo e inacto” sobre os humanos, razão pela qual é cada vez mais utilizado para fins terapêuticos. Quatro dezenas de jovens aprofundaram, em Cacia, conhecimentos sobre o tema

“Sintam o cavalo: apalpem o cavalo, puxem a crina, apertem as cerdas” – diz José Maya Seco aos quarenta participantes nas II Jornadas de Equitação Terapêutica. Em pequenos grupos, à volta de três cavalos, os participantes passam a mão pelo dorso do cavalo, enquanto o animal assiste, imperturbável, aos carinhos e toques, primeiro tímidos, depois desinibidos.

Logo no início da primeira aula, destas segundas jornadas que decorreram na Escola Equestre de Aveiro (EEA), em Cacia, de 20 a 22 de Outubro, é possível perceber porque é que o cavalo é cada vez mais utilizado no tratamento de crianças ou adultos com dificuldades de comunicação e/ou motricidade.

O cavalo exerce um fascínio “instintivo e inato” sobre os humanos, diz Carina Pedrosa (ver texto ao lado). José Maya Seco, monitor do curso e proprietário da EEA, acrescenta que “os movimentos ritmados e cadenciados do cavalo são estímulos mecânicos e neurológicos que provocam no ser humano uma resposta sensorial”; daí que este animal seja utilizado na reabilitação de pessoas com síndroma de Down, autismo, paralesia cerebral ou mesmo com os que sofreram um AVC (ataque vascular cerebral) – é a chamada hipoterapia, prática cada vez mais corrente, como prova o sucesso das primeiras jornadas, no ano passado, e a lista de espera para participar nas deste ano, sobre “abordagem psicomotora na hipoterapia”.

Os quarenta participantes, vindos de Vila Real a Beja, na sua maioria são jovens profissionais da reabilitação, recém-licenciados. Ao longo de três dias aprenderam e treinaram (com módulos teóricos, incluindo o visionamento de filmes, e sesssões práticas no picadeiro) sobre como a interacção com o cavalo influencia a psicomotricidade humana (ou seja, na forma como reagimos/sentimos/pensamos e nos movemos). Claro que também houve lugar para aprendizagens inesperadas, como a que aconteceu na primeira aula, em pleno picadeiro. A certa altura, um dos participantes queixa-se ao levar com a cauda do cavalo. Lição pronta de José Seco: “O ponto fraco do cavalo não é o coice. É a cauda. Coitada da mosca!”

Bom para a GNR, bom para as crianças

Outra das lições da aula a que o Correio do Vouga assistiu poderá ter um grande alcance. Como resposta à partilha de uma participante sobre a dificuldade em encontrar alguém que tenha cavalos e que deixe que as crianças da sua instituição com eles contacte, o monitor de equitação deixou a sugestão: “Fale com a GNR da sua terra. Fale com o tratador da GNR; e vai ver que eles até vão gostar que as crianças lidem com os cavalos. Eles não gostam de ser vistos como alguém que só passa multas”. É bom para as crianças e é bom para a GNR.

A EEA existe há 20 anos. Na última década, tem-se dedicado à hipoterapia, quer colaborando com a APPACDM de Aveiro, com quem organizou as jornadas, quer facultando sessões a particulares.

Dois testemunhos de “cura com cavalos”

Provoca imediatamente reacções

Carina Pedrosa há 13 anos que anda a cavalo. “É um animal com que podemos verdadeiramente fazer equipa”, diz a terapeuta vocacional da APPC de Vila Real. Desde há três anos, Carina faz hipoterapia com adultos deficientes. O caso mais recente de bons resultados passou-se na semana passada. “Um autista a quem eu estava a acompanhar agarrou-se ao cavalo e nunca mais o largou. Ficou com um sorriso de orelha a orelha. Sensações e sentimentos que noutros espaços demoram semanas a trabalhar, na presença do cavalo foram instantâneos”, diz Carina Pedrosa.

Os autistas carcacterizam-se pela ausência de comunicação com o exterior, num alheamento de tudo e de todos. A hipoterapia tem servido para quebrar esse isolamento. “É óptima para estimular as sensações. É instintiva e inata. Na presença do cavalo – resume a terapeuta –, o deficiente comunica. Consequentemente, a comunicação com as outras pessoas também melhora”.

É mais fácil de entender

Verónica da Silva, de Aveiro, estudou Motricidade Humana e estagiou na Escola Equestre de Aveiro. Como trabalho final de curso, analisou o caso de uma criança que começou muito tarde e com grande dificuldade a andar. “Não conseguia apanhar objectos sem cair no chão, por exemplo, e tinha atrasos na linguagem”, diz Verónica da Silva. “Com a hipoterapia, a evolução foi espantosa ao nível da motriciadade, da socialização e da comunicação”. A criança passou a andar normalmente e melhorou a sua comunicação.

Actualmente, Verónica trabalha como técnica de educação especial e reabilitação na Associação Portuguesa de Paralesia Cerebral (APPC), fazendo equitação terapêutica com crianças autistas em Coimbra e na Figueira da Foz. “A criança gosta do cavalo e fala com ele, porque é mais fácil de entender do que as pessoas. Isso acaba por ter reflexos positivos em todos os aspectos da comunicação”, afirma Verónica da Silva.