O complexo da «inferior idade»

Portugal e a Crise A crise está aí. Está e parece ter gostado de nós, pretendendo ficar por uns tempos.

Mas, se a etimologia pode servir para alguma coisa, que seja para, neste caso, alentar e nos conduzir a aprender com a oportunidade que nos é dada, na medida em que, segundo a sua origem grega, «crise» é uma ação ou capacidade de distinguir, é um momento de decisão.

Para muitos portugueses, infelizmente, a densidade do momento servirá mais para tudo confundir do que para distinguir, contudo, é importante não perder a distância crítica que permitirá fazer as melhores escolhas de entre as que se afigurarem diante de cada um, sabendo que, quando se está em situação de dilema e já não se pode escolher entre o bem e o mal, mas entre dois males, há que escolher o mal menor. Não é, portanto, momento para tomar decisões que deitem tudo a perder. Uma sabedoria que os jesuítas souberam colher do seu fundador, Santo Inácio de Loyola, que sabia que não é no meio das tempestades e da turbulência que se devem tomar as decisões, mas na acalmia e serenidade.

Com este ponto de partida, importa, então, procurar a distância que nos permita ler, em profundidade, como chegámos aqui.

Poderá parecer que o nosso olhar se lança para demasiado longe, mas, se tivermos em conta que as memórias e a cultura não se transmitem por saltos, mas num contínuo, perceberemos o alcance das nossas ideias.

Portugal viveu, a partir do século XVIII, a saudade de um passado em que fora hegemónico. Por sentir que o passado já lá ia e não havia como recuperá-lo, a saudade deslocou-se do passado para o futuro e o país passou a viver uma nostalgia de um amanhã nunca atingido. O sonho que, a partir daqui, se abriu ao nosso olhar, fez-nos partir em busca de uma quimera que se foi configurando em cada momento, mas que se alimentava da mesma seiva: superarmos a dor de termos perdido o poder que um dia tivemos.

De então para cá, quisemos ser grandes, parecendo que vivíamos à frente do tempo por imitarmos o que considerávamos ser o mais moderno na Europa. O nosso modelo era Paris ou Londres… e, hoje, Berlim.

O que éramos era um não-ser. Vivíamos o presente de uma ausência.

Esta condição fez-nos uma nação adiada… Éramos um desejo nunca concretizado.

Podem parecer palavras vãs, mas que nos conduziram, nos últimos anos, a tomar decisões sobre comportamentos que pouco têm a ver com a nossa matriz e com a nossa identidade. Foi em nome de um «superior idade» que aceitámos o aborto, ou que acolhemos a equiparação da união homossexual ao casamento heterossexual, ou que nos dispusemos a mudar as leis que protegem quem é mais frágil ou seguimos mitos pedagógicos cujos resultados estão à vista, etc.

Não nos queríamos na idade inferior para que os fantasmas que temos na mente não nos acusassem de «inferior idade». Não será, aliás, por acaso, que a última palavra da nossa obra magna, «Os Lusíadas», é ‘inveja’. E decidimo-nos por uma vida que não era a nossa. O que outros faziam é que era bom. E quisemos parecer grandes. Assim foi entre os que decidiam as grandes decisões; assim foi nas nossas casas. Pois, porque se os políticos não foram grandes não foi, apenas, porque «um fraco rei faz fraca a forte gente», mas sim porque um «rei fraco é o que melhor serve à fraca gente». Assim o decreta a democracia: quem não é no pequeno não é no grande. Um povo que nas coisas miúdas se engana e ilude, iludido e enganado será nas coisas graúdas.

A lição está à vista: aprendermos a viver o que somos, sonhando crescer à medida das nossas possibilidades, sem nos enganarmos a nós e sem enganarmos os outros. Elevando ao melhor o melhor de nós, mas sem invejar as conquistas dos demais, antes sentindo nelas o desafio de nos transcendermos a nós mesmos, rentabilizando o que somos.