Dias positivos “Abandonado a si próprio, numa sociedade hiper-individualista, o indivíduo hiper-moderno é frágil”. Quem escreveu isto não foi o Papa, falando do relativismo, um padre, ou um moralista cristão. Foi Gilles Lipovetsky, filósofo francês que em Junho esteve em Lisboa para falar da “felicidade nas sociedades hiper-consumistas”.
Não sei o autor é cristão. Quando no final dos anos 80 li o seu clássico “A Era do Vazio”, julgava que não. Mas não posso deixar de notar que os resultados das suas investigações sobre a felicidade já nós, cristãos, os conhecemos há dois milénios.
Diz o francês que o hiper-consumo (televisões, viagens, “navegar na Internet quando lhe apetece”, “pegar no carro quando lhe apetece para fazer o que lhe apetece”, etc.) virou do avesso a atitude das pessoas perante a vida, destabilizando-as e tornando-as inseguras.
Mais: pensamos que somos livres, por escolhermos os pormenores, mas “o mercado ganhou um poder sem precedentes na vida de cada um e sobre a maneira de concebermos a felicidade em termos do dia-a-dia”. E o paradoxo da felicidade pensada como hiper-consumo é que nunca houve tanta oferta de coisas e, ao mesmo tempo, “tantas perturbações do comportamento, tantas tentativas de suicídio, tanta solidão”.
De onde virá então, a felicidade? “Antes de mais, precisamos dos outros para ser felizes – e isto nada tem a ver com o consumo ou a falta dele”, diz o filósofo. Se eu fosse o entrevistador (estas declarações saíram no Público de 2 de Junho de 2007), perguntava ao sr. Lipovetsky: “O sr. Filósofo… é cristão, não é?”
J.P.F.
