Poço de Jacob – 60 Certo dia em que celebrava Missa para uma comunidade religiosa, vimos que a hóstia não tinha sido cortada para colocar na custódia, que se guardava no sacrário, para que as Irmãs fizessem a hora santa, segundo as suas constituições. Tive de cortar a hóstia de modo a que coubesse. Uma irmã tremeu e disse: “Padre, isso não”. Como se o acto ferisse Nosso Senhor. É claro que preferiria não fazê-lo, mas teve de ser. A irmã ficou chocada na sua sensibilidade.
Sei que os abusos eucarísticos se multiplicam, que as pessoas que comungam na mão não cuidam de ter as suas mãos devidamente limpas, depois de terem estado com dinheiro na mão para o ofertório, que não se cuida das pequenas partículas que caem no chão ou ficam presas na mão, esquecendo o que dizem os documentos da Igreja, que Cristo está todo Ele em toda a hóstia e nos seus fragmentos, por pequenos que sejam. Sei que as igrejas se tornam salões de conversa e festa diante do sacrário e até do Santíssimo exposto, que quando zelam pelas igrejas as zeladoras não tem o cuidado da reverência e do falar baixo, que quando ensaiam os coros de Domingo há conversas que se poderiam guardar para a rua… E algumas nem na rua ficam bem. Sei que muita gente passa a Missa a conversar sobre a sua vida ou a vida dos outros; que se recebe o Senhor sem se confessarem a um sacerdote porque já se confessaram a Deus, como se isto fosse doutrina católica; que as pessoas que tomaram a opção, por vezes obrigadas, de uma união de facto, se esquecem que esta opção livre, na prática, leva a outra opção que é a de não poder comungar – e o mesmo se passa com os casados depois de um divórcio -; que o pecado mortal não passou de moda e se comete tal como sempre; e que o Pão dos Anjos é para os homens que precisam de médico, mas devemos tratar-nos antes de o receber no sacramento, pelo cultivo da vida em graça.
Enfim, o Papa já alertou o suficiente sobre os abusos da Eucaristia, e basta vê-lo a dar a comunhão para entendermos a mensagem. No entanto, mais tarde, eu soube que aquela irmã tão sensível à hóstia que se partia para caber num ostensório, com pena de “ferir” Nosso Senhor, tinha saído daquela comunidade, deixando atrás de si um rasto de calúnias contra a sua superiora e problemas nas paróquias onde trabalhava. Foi mudada para outra comunidade de sua congregação como acontece, e muito bem, nas comunidades, e deveria acontecer também com os párocos… Fiquei chocado.
Jesus na hóstia, em Eucaristia, gera a Igreja, que fundou com o seu amor, provado na cruz… A hóstia é Comunhão com Deus, mas também é comunhão em Igreja, com os irmãos. Não podes oferecer a tua oferta no altar sabendo que teu irmão tem queixas justas contra ti. Ao receber essa Comunhão, eu devo ter consciência da comunidade paroquial e dos meus irmãos. Jesus também está no terreno sagrado do meu coração e do coração dos outros. Tudo o que eu fizer a um irmão meu é a Jesus que o faço. Ser sensível para o respeito pela Eucaristia é nosso dever de devoção e de convicção da presença real do Senhor, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, nas espécies eucarísticas. Mas se eu maltrato e corto a paz de Jesus, no coração do meu irmão, também cometo sacrilégio. O meu semelhante também é templo do Senhor, hóstia onde Jesus se entrega ao Pai. Daí que pensei que temos ainda muito caminho a percorrer. Se os abusos eucarísticos preocupam a Igreja de ontem e de sempre, as maldades dos que comungam, padres e freiras e bispos incluídos, prejudicam o progresso espiritual da Igreja e cortam o plano de amor de Deus para a humanidade. Foi a todos nós que Ele disse, na manhã da ressurreição: “A Paz esteja convosco”.
P.e Vitor Espadilha
