O diácono, testemunha e guia da caridade e da justiça

Os diáconos permanentes da Diocese de Aveiro reúnem-se no Seminário de Santa Joana, no dia 22 de Janeiro (Dia de S. Vicente e dos diáconos permanentes), para, entre outros assuntos, debaterem as conclusões do II Simpósio nacional, que decorreu em Fátima, tendo como tema “O Diácono, Testemunha e Guia da Caridade e da Justiça”, nos dias 30 de Novembro e 1 de Dezembro de 2007. O Pe Georgino Rocha acompanhou o Simpósio e elaborou uma síntese que o Correio do Vouga agora retoma nas suas principais afirmações.

Aspectos da Teologia

do ministério diaconal

(…) “É preciso reflectir e aprofundar o ser diaconal com um sacramento da dimensão servidora da Igreja a favor do povo de Deus, naquilo que lhe é próprio em seu agir diaco-nal”. Nem agente pastoral promovido como suplente do presbítero em momentos de «congestionamento» pastoral, nem clérigo de segunda à espera do que há-de fazer ou “mendigando licenças” para o desempenho das funções que o bispo diocesano lhe confia. O exercício destas funções deve fazer-se sempre em comunhão com os agentes pastorais, sobretudo os do ministério ordenado, designadamente se estão ao serviço da mesma comunidade: paróquia, unidade pastoral ou outra.

A graça sacramental da ordenação confere-lhe um carácter especial, quer à sua pessoa, quer ao seu ministério, consagra uma vocação específica que plasma a sua identidade na Igreja de Cristo.

Por opção do II Simpósio, a reflexão sobre este ministério está polarizada na caridade e na justiça e na função do diácono como testemunha e guia. É um ministério que dá forma ao rosto e expressão ao agir da Igreja serva num mundo de pobres. Está em sintonia com a afirmação do Vaticano II: a pobreza e a fraternidade constituem a glória e o testemunho da Igreja (GS 88). A missão dos diáconos – “sinceros na caridade, solícitos para com os pobres e fracos, humildes no serviço”, segundo o Pontifical da Ordenação – tem pleno cabimento. As novas fronteiras da pobreza alargam os horizontes da sua intervenção e realçam a urgência da sua acção.

Diáconos com um coração grande para amar e servir a todos e por todos sofrerem. Diáconos que vivem o seu ministério como testemunho vocacional. Diáconos que, conscientes das limitações, aceitam os riscos que todo o compromisso comporta e se afirmam pela capacidade de saber propor, despertando e formando outros cristãos para o serviço voluntário em todas as suas especificações.

Perspectivas de futuro

Tendo em conta a temática e interpelações deste II Simpósio e ouvindo os “ecos” que muitos diáconos foram emitindo, ouso propor uma série de perspectivas que podem ajudar a configurar o futuro do diaconado em Portugal. Enuncio apenas algumas:

1) Suscitar e animar uma visão ampla e fundamentada do ministério diaconal tanto no ser como no agir da Igreja mistério de comunhão e sacramento universal de salvação. A ministerialidade da Igreja necessita de ser reavaliada na prática pastoral – o que exige articulação entre a compreensão da Igreja como corpo de Cristo, templo do Espírito e povo de Deus. Como corpo acentua a organização hierárquica; como templo destaca a multiplicidade de graças e carismas; como povo de Deus privilegia o amor do Pai que a todos irmana na dignidade de filhos.

2) Apreciar o que une e o que diversifica o ministério diaconal – fruto da ordenação e da missão canónica atribuída – do ministério dos presbíteros e dos bispos, cultivando a espiritualidade da comunhão hierárquica. Em que consiste a singularidade do seu ministério numa Igreja a necessitar sempre de renovação e num ministério ordenado carecido de revigoramento e de reequilíbrio? É notória a necessidade de “descongestionamento” pastoral e da reorganização das funções e serviços na Igreja.

A mensagem de Bento XVI aos nossos Bispos na recente “visita ad sacra limina” é bem expressiva e interpelante. Tudo continuará na mesma, sem uma séria e fundamentada conversão à eclesiologia da comunhão e participação em todos os níveis da configuração eclesial.

3) Articular, em jeito de sinfonia, o ministério diaconal com as funções e serviços feitos por leigos, sobretudo quando lhes é atribuído o cuidado pastoral de comunidades: cooperar em serviços que envolvam o exercício de jurisdição (cân. 129 & 2); confiar uma paróquia a um diácono ou a outra pessoa que não tenha o carácter sacerdotal ou a uma comunidade, embora a actividade pastoral seja dirigida por um presbítero, com as faculdades de pároco (cân. 517 & 2).

4) Cuidar mais a selecção e formação, tanto inicial como contínua, de modo a surgir um perfil correspondente ao diaconado que o magistério – intérprete das exigências da Igreja e das interpelações da sociedade – define e prescreve. O tema deste II Simpósio é deveras expressivo e exige mais concretização e aprofundamento.

5) Destacar tanto na formação como no exercício do ministério o pensamento social cristão ou a doutrina social da Igreja com os respectivos princípios de reflexão, normas para julgar e directrizes para a acção (OA 4). A mudança cultural em curso repercute-se profundamente em todos os âmbitos da vida e carece de uma profunda evangelização. As intervenções no Simpósio, na sua pluralidade de tons e sons, são esclarecedoras e convincentes.

6) Situar o ministério do diácono no quadro familiar e envolver, cada vez mais, a esposa, de modo que, sem confusões, mas com grande compreensão da graça da conjugalidade, o casal possa avançar no caminho da santificação vivendo o seu amor em Cristo, realizando a missão que lhes é confiada, apreciando a graça da ordenação e valorizando o ministério diaconal recebido.

7) Definir, por meio de directórios ou de outras formas, as regras fundamentais da situação do diácono em cada diocese ao longo do exercício do ministério, do seu itinerário existencial, quer na saúde quer na doença; ter igualmente em conta a fase da cessação do exercício do ministério por razões fundamentadas: perda notória de capacidades, senilidade precoce, opções contrárias ao estatuto diaconal (divórcio e recasamento ou outras).

8) Aceitar ir caminhando como testemunha e guia da caridade e da justiça, mesmo sem ter todas as certezas, melhorando cada dia o exercício do ministério, a qualidade da pertença ao colégio diaconal, os laços da comunhão eclesial e as formas de presença e intervenção na família e na sociedade.

Em resumo, como a árvore está na semente, assim o futuro está no presente. O diaconado é já uma realidade consistente na maioria das dioceses portuguesas e precisa de novas condições para desabrochar plenamente. A aceitação do seu ministério constitui uma inegável riqueza pastoral e facilitará uma reorganização das funções no ministério ordenado e nos serviços confiados aos leigos. Contribuirá também para uma configuração da Igreja mais plural nas formas de serviço e de diálogo com o mundo da pobreza que continuamente apresenta “novas fronteiras”.

P.e Georgino Rocha