O erro de Colombo

Livro Cristóvão Colombo chegou às Américas convencido de que estava a chegar às Índias pelo Ocidente. Estava enganado, mas não foi esse o seu erro. O erro foi concluir que o mundo é redondo

Thomas L. Friedman mostra neste livro que o mundo é plano. Ou melhor, está a ficar plano. E foi precisamente na Índia que fez essa descoberta. Ao visitar os grandes centros de investigação de multinacionais como Microsoft, IBM, HP ou Texas Instruments, na Índia, um executivo indiano disse-lhe: “O ‘terreno do jogo’ está a ser nivelado”. Estar a ficar plano quer dizer que, “como nunca na história da humanidade, é agora possível que mais pessoas colaborem e concorram em tempo real com outras, em muitos tipos de trabalho, em muitos mais cantos do planeta, em pé de igualdade”. Estar a ficar plano quer dizer que há milhões de pessoas, principalmente na China e na Índia, que saem da pobreza e entram na classe média. Estar a ficar plano quer dizer que a geografia perdeu significado, porque o mercado do consumo, do trabalho, da cultura, etc. é global. Estar a ficar plano é o resultado da globalização.

E agora atenda-se a isto: o autor escreveu o livro para que os Estados Unidos, de onde é originário, não sejam apanhados desprevenidos neste processo de globalização. Ou seja, é melhor deitar fora o preconceito de que a globalização é igual a americanização. A América do Norte é tão ameaçada pela globalização (que não tem nenhum comandante) como a Europa. Mas se se prepararem, a globalização trará uma “espantosa era de prosperidade e de inovação”.

A globalização é inevitável. Como foi inevitável a revolução industrial. Os luditas (seguidores de Ned Lud) destruíram teares mecânicos, mas isso não deteve a revolução industrial. Hoje destroem-se os McDonalds e fazem-se manifestações contra o G8, mas a globalização é um bem para os pobres (“facilita a vida aos pobres que queiram concorrer no mercado aberto” – é uma das teses deste livro). Há problemas, certamente. O que fazer, por exemplo, quando os postos de trabalho estão ameaçados por mão de obra mais barata, provocando deslocalizações, visto que “o trabalho é feito onde pode ser feito de forma mais eficaz e eficiente”? Mudar. Perder o emprego não é um drama. Drama é ficar imobilizado. Drama é não estar preparado para a mudança. “A mudança é difícil. A mudança é pior para aqueles que são apanhados de surpresa. A mudança é mais difícil para aqueles que também têm dificuldades em mudar. Mas a mudança é natural; a mudança não é nada de novo; a mudança é importante” (pág. 30).

O tom deste livro é claramente optimista, embora em muitas passagens isoladas pudéssemos fundamentar alarmismos. Pertence “a um género ainda raro, o dos livros que apoiam a globalização sem entrarem em euforia”, diz João César das Neves, no prefácio da edição portuguesa. E acrescenta que a obra “é muito melhor do que a dieta habitual de livros antiglobalização… e também muito mais divertida”.

Última nota: Tony Blair, que preside à União Europeia até ao final do ano, usou este livro na cimeira de líderes europeus em Hampton Court, Londres, em finais de Outubro, para fazer um debate tranquilo sobre a globalização e as reformas económicas e sociais que ela exige da Europa.

O mundo é plano.

Uma história breve do século XXI

Thomas L. Friedman

Ed. Actual

510 páginas