O fim anunciado do ATL

Actividades e enriquecimento curricular De Norte a Sul do país, em maior ou menor escala, as IPSS’s atravessam uma crise que resulta da “ameaça” (agora em contagem decrescente) do fim das comparticipações da Segurança Social à frequência do ATL. E não são apenas as instituições que estão expectantes: são os pais, educadores, professores, até as crianças… a aguardar o desfecho de um conflito latente, que envolve vários sectores da sociedade.

A implementação das actividades de enriquecimento curricular (AEC) foi uma medida pouco preparada e que, por consequência, criou – no terreno – incontáveis constrangimentos a todas as entidades envolvidas. Esta é uma medida que implica o empenhamento de organismos pouco “treinados” num trabalho de parceria que se quer eficaz e que não se compadece com o “mais ou menos”, porque são as crianças as principais lesadas quando as coisas correm “menos bem”. O facto de este ser um ano de experiência, não serve para desculpabilizar medidas atabalhoadas que comprometam o ambiente adequado ao processo de aprendizagem de crianças, “cobaias” na generalidade deste processo.

A outro nível e sob a bandeira da igualdade no acesso ao ensino básico, o Ministério da Educação está a comprometer, de forma desastrosa, o trabalho de qualidade, desenvolvido há anos pelas IPSS. Com a maior leviandade, aconselha as instituições a encerrarem os ATL’s (no caso de não terem capacidade financeira para os auto-sustentarem) e despedirem (com justa causa!) colaboradores qualificados… Não se multiplicam aqui, de novo, as clivagens e as desigualdades sociais? Quantas famílias estamos a atirar, uma vez mais, para a precariedade económica? Muitas centenas!

Apesar da crueza desta realidade, as IPSS’s têm tentado inverter o que se prevê quase catastrófico: aderiram aos grupos de parceiros que se foram formando nos diversos concelhos e estão, neste momento, fruto da capacidade de trabalho dos seus técnicos e colaboradores, a dinamizar de forma muito satisfatória as actividades que se propuseram.

Em Recardães, e acima de toda a polémica gerada em torno da implementação desta medida, a procura, no âmbito do ATL, registou este ano um pequeno aumento. Aliás, estamos em crer que a Escola, por si só, nunca vai suprir as necessidades das famílias, porque poucos são os pais/educadores que traba-lham das nove às cinco e meia. Assim sendo, se por um lado o Estado oferece aos pais actividades extra-curiculares gratuitas (mas apenas naquele horário), por outro, exige que sejam eles a pagar na totalidade, os custos inerentes à frequência dos filhos dos ATL (já que a Segurança Social deixará de o fazer). Importa, a esta altura, questionar se a gratuitidade que o Estado oferece às famílias não ficará, afinal, ainda mais cara que antes…

Voltando, concretamente, à nossa instituição, o CSPR assegura Actividade Física/Desportiva e Música a cerca de 125 crianças, que frequentam a Escola Básica de Recardães: afectos a estas actividades estão cinco docentes.

No início do ano lectivo, revelou-se extraordinariamente difícil dinamizar estas actividades de forma pedagógica. A informação era dispersa e contraditória, muitos alunos não estavam inscritos no ATL (o que dificultava o transporte dos grupos) e problemas para resolver eram muitos. Não obstante, graças à boa vontade e tenacidade do corpo técnico e auxiliar afecto ao ATL, gradualmente as actividades começaram a ser desenvolvidas com qualidade e, o mais importante, tentando respeitar o ritmo de crianças ainda muito pequenas, sem estrutura para suportar mudanças tão radicais.

Importa, a esta altura, reflectir e avaliar a forma algo duvidosa de implementação desta medida, repensar o trabalho de parceria, para podermos contribuir, no futuro, efectivamente, para o desenvolvimento sustentado de um país baralhado em matéria de educação.

Vanda Oliveira

Técnica do Centro Social Paroquial de Recardães