Bagão Félix defendeu que a humanização deve ir mais longe do que a norma jurídica e a tecnologia. “Sermos pessoas humanas” é o que “nos distingue dos outros seres”.
“O grande desafio da solidariedade é deixarmos um mundo melhor às crianças”, afirmou Bagão Félix na conferência que proferiu no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré sobre “os novos alcances e desafios da solidariedade”, no âmbito das Conferências de Maio, promovidas pela Paróquia da Gafanha da Nazaré.
Para Bagão Félix, não basta sermos “indivíduos” ou “cidadãos”, mas “temos de subir, e subir significa sermos pessoas humanas”, porque é isso que “nos distingue dos outros seres”. E ser “pessoa humana” significa ser “pessoas não só com direitos e deveres legitimados pela lei, mas pessoas com coração, com afecto, com percepção, com sensibilidade, com vontade, com alma, com espírito”. E é aqui que, segundo ele, “reside o princípio da solidariedade”.
Bagão Félix considera que a solidariedade baseada na norma jurídica e no direito é importante, mas torna-se “mecânica” e, por conseguinte, não chega porque necessita de “alma”, definindo a solidariedade como “a expressão cívica do bem comum, solidificada pela cultura do próximo e pelo princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja, que é a centralidade da dignidade da pessoa”.
Apesar de todo o progresso social e tecnológico ocorrido a partir de meados do século XX, Bagão Félix alertou para o crescente “deserto espiritual que conduz ao isolamento, que é um dos grandes problemas actuais”, dizendo que “hoje temos poderosas tecnologias, mas, às vezes, desvalorizamos as relações entre as pessoas”. Referiu como exemplo os modernos meios de comunicação que, afirma, são “tecnologias que nos tornam mais próximos e, ao mesmo tempo, nos afastam”. Citando o Papa Bento XVI, disse que “a globalização fez-nos mais próximos, mais perto uns dos outros, mas não nos tornou necessariamente mais irmãos”.
No dizer de Bagão Félix, a tecnologia “não nos conseguiu trazer a garantia da justiça social”, porque “continuamos a conviver com a miséria, mesmo em zonas onde ela já não devia existir, com a exploração, com a relativização da vida, com a secundarização da família, com o isolamento, com a violência, com as enormes possibilidades tecnológicas do mal”.
Como economista, docente universitário e antigo governante com tutela na área económica e social, Bagão Félix recordou que poderia encontrar as mais diversas explicações “académicas” para a actual crise, preferindo, no entanto, afirmar que “a razão fundamental desta crise é comportamental, é a erosão da fronteira entre o bem e o mal”, apontando factos como o deixar para as gerações futuras o pagamento das facturas, o fim da poupança nas famílias, a qual, em sua opinião, “é uma forma de solidariedade para com os filhos”.
“A solidariedade em Portugal está muito sustentada no apoio financeiro que o Estado dá”, reconheceu Bagão Félix, para quem “isso condiciona e transforma o Estado num tutor, às vezes implacável, burocrático, pesado, sem alma, de expressão assistencialista”, questionando, de seguida, “o que seria do nosso país se, de repente, as instituições de solidariedade ligadas à Igreja desaparecessem”. “Era o caos”, rematou.
O antigo governante chamou a atenção para o facto de o Estado não ter dinheiro, uma vez que “o dinheiro que o Estado tem é dos contribuintes que o entregam ao Estado”, para este exercitar o bem comum.
A terminar, Bagão Félix recordou que “para nós, os cristãos”, a “caridade é o estado superior da solidariedade”.
As conferências prosseguem na próxima quinta-feira, 26, às 21 horas. Júlio Pedrosa fala sobre “educação para a felicidade”.
Cardoso Ferreira
