Poço de Jacob – 39 Há coisas que só se compreendem à luz de Deus. Para o judeu do Antigo Testamento, até uns 200 anos antes Cristo, os mortos iam para o “sheol”, como o limbo de que se falava antes. A recompensa e o castigo eram cá na terra. Morrer jovem, ou virgem, ou ser estéril eram desgraças, como castigo era ser pobre, viúva, órfão ou leproso.
Depois da morte, ninguém pode louvar o Senhor – diz um salmo da Bíblia. Era o modo de pensar que justificava a lei de talião: Olho por olho e dente por dente. Falava-se de amor, mas o céu ou o inferno seriam cá na terra, como ainda pensam muitos que se dizem católicos.
A revelação foi progredindo e vemos a ideia da ressurreição surgir em escritos bíblicos cerca de 100 anos antes de Cristo. O rezar pelos mortos já é recomendado no livro dos Macabeus.
Jesus, Palavra do Pai, vem mostrar-nos a verdade de um céu como destino e como recompensa para o ser humano e de um inferno que a chamava “geena”. Dele falou S. Paulo como ressurreição para a morte, enquanto o Apocalipse disse que é uma segunda morte.
Bons e maus são banhados pelo mesmo Sol. Mas a opção de vida na Terra prepara o nosso além, conforme nos encontrar o tocar das trombetas na hora da nossa morte. Entre muitas consequências da plenitude da Revelação, o Amor manifestou-se no seu grau maior com a encarnação do Filho de Deus, que tanto amou o mundo e que foi vítima da maldade dos homens, carregando sobre Ele o peso das nossas culpas. Deu a vida por nós e até disse que não há maior prova de amor do que fazê-lo pelo próximo.
Mas mandou dar a outra face. Disse que amássemos os nossos inimigos. Abençoássemos os que nos amaldiçoam. Rezássemos pelos que nos perseguem. E isto com todo o coração, que é o mesmo que dizer com toda a mente, com toda a verdade do nosso ser, sem nada guardar de recordação. Com estes mandamentos, tudo mudou. Atingimos com isto o grau heróico do amor que só se justifica numa perspectiva de contemplação do Filho de Deus e de um enorme desejo de contemplar a sua face no Céu: “Perdoai e sereis perdoados”. “Sede misericordiosos e alcançareis misericórdia”. “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos”. São afirmações de tal modo claras e indiscutíveis, que anulam para sempre a lei de talião do Antigo Testamento e nos introduzem na era do perdão de Deus, a era da Divina Misericórdia.
O perdão não exclui o uso da justiça e até da prudência, diz o Papa Bento XVI, mas Cristo ensina-nos do alto da cruz que quem quiser a recompensa do céu deve proceder como Ele procedeu: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Pois se Deus tem em conta os nossos pecados, ninguém poderá salvar-se, diz o salmo. Por isso, faz contas à vida e começa a perdoar e pedir desculpa enquanto tens tempo. É caso para dizer que não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
P.e Vitor Espadilha
