Sempre que aparece um filme ou um romance sobre Jesus Cristo, há uma questão que de imediato é posta: “Como é o Cristo desse autor?” O mesmo é perguntar: “Qual a cristologia subjacente?”
No filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, como sempre, a questão faz todo o sentido. É que cada época, comunidade, geração ou mesmo pessoa tende a ver Jesus Cristo de uma forma particular. Por isso já tivemos o Cristo judeu, romano, bizantino, nos primeiros séculos, e o Cristo hippie, superstar, guerrilheiro, comunista, nos tempos mais próximos…
Não há tarefa mais pessoal do que escrever uma vida de Cristo – dizia Albert Schweitzer, teólogo e missionário protestante francês (e prémio Nobel da Paz em 1952). Isso é assim desde o início. Por isso temos quatro Evangelhos e não um. E o Cristo de cada evangelho, sendo sempre o mesmo, tem rostos diferentes, atitudes diferentes, objectivos diferentes, nem sempre conciliáveis. Cristo é plural desde o início.
Neste sentido, Mel Gibson, um católico convertido há uma dezena de anos e que gosta de “ouvir” a missa em latim, tem toda a legitimidade em filmar o Cristo da sua fé pessoal. Mas o resultado final não é muito proveitoso. Quanto a mim, separa o que não é separável. A vida, morte e ressurreição de Jesus não são separáveis da sua mensagem, milagres, palavras e gestos. Ora o que Mel Gibson faz é apresentar apenas as doze horas finais de Jesus, esquecendo a mensagem. O objectivo é deliberado, quer dar-nos uma imagem hiper-realista da morte do Redentor, mas o excesso de sofrimento tem resultados contrários. Chega a ser obsceno (palavra de origem grega que significa “fora de cena”, pois referia-se às coisas que não podiam ser representadas no palco) ver tanto sangue e chicoteadas, quando os Evangelhos são muito discretos nos relatos da Paixão. Mais: nos Evangelhos o sofrimento não é gratuito – impressão com que se fica ao ver o filme, já que a mensagem está omissa. Não admira que surjam várias pessoas a dizer que as crianças não devem ver o filme. Ou que haja adultos a sair a meio da sessão do cinema. O que pretende sensibilizar acaba por atordoar. Este filme pode ter o mesmo efeito que o excesso de violência nos telejornais: insensibiliza.
Por último, apesar da propagada fidelidade aos Evangelhos (o filme é falado em aramaico e latim), esta pelícu-la inspira-se em grande parte na Via-Sacra tradicional (que inclui episódios que não vêm nos evangelhos: Verónica, três quedas a caminho do Calvário…) e em episódios de origem apócrifa ou em visões místicas (os esforços de Cláudia, mulher de Pilatos, para libertar Jesus; a Madalena como pecadora – não vem nos evangelhos –, Maria a limpar o sangue da flagelação, os demónios, nomes…).
Este Cristo sofredor mas sereno pode fazer-nos pensar que a morte foi mesmo morte e sofrimento, contra a levian-dade com que às vezes pensa-mos que “morreu mas ressuscitou ao terceiro dia”, como se tudo tivesse sido muito leve, rápido e fácil. No entanto, a paixão excessiva pela violência e pelo sofrimento deturpa a mensagem.
