O importante não é Taizé, é o encontro pessoal com Cristo

Ir. David, único português (natural de Portalegre) que actualmente integra a Comunidade Ecuménica de Taizé, esteve em Aveiro, a convite da Pastoral Juvenil, como já foi referido nestas páginas. Publica-se hoje uma entrevista feita na ocasião.

CORREIO DO VOUGA – O que o levou a querer ficar em Taizé?

IRMÃO DAVID – Foi o fruto de uma longa caminhada, na qual certamente houve muitos factores que me marcaram. Olhando para trás, não vejo uma grande decisão que me levou a ficar em Taizé, mas muitos pequenos passos… Como adolescente, participei em diversas peregrinações a Taizé e a encontros europeus, sem no entanto pensar numa vocação religiosa. Depois de três anos a estudar engenharia, senti necessidade de um tempo de paragem e pensei passar o Verão em Taizé. No final desse Verão, pareceu-me importante alargar essa estada junto dos irmãos. Mas só depois de vários meses a viver em Taizé me surgiu a questão da vocação, devido a uma grande identificação com o estilo de vida que lá encontrei: simplicidade, comunidade, oração, abertura, partilha, solidariedade…

Teve reacções adversas, dos pais, de professores, de colegas?

Quando entrei na Comunidade, penso que já todos esperavam esse passo. No entanto, quando decidi interromper o curso para passar uma temporada em Taizé, encontrei alguma incompreensão e sobretudo admiração, por fazer algo que era bastante invulgar. Mas, apesar de não me compreenderem, todos respeitaram as decisões que tomei – provavelmente também porque as tomei com alguma firmeza…

Como é viver numa comunidade de várias línguas, várias culturas, várias religiões?

Todos os irmãos da comunidade são cristãos, portanto partilhamos a mesma religião. Parece-me que a diversidade cultural se sente mais do que a diversidade confessional. Apesar de haver irmãos católicos, anglicanos, luteranos, calvinistas, etc., a fé em Cristo, o desejo de vivermos juntos o Evangelho e de concretizarmos na nossa vida a reconciliação ultrapassa facilmente as diferenças institucionais que eclesialmente ainda permanecem. Como vivemos em França, a nossa língua comum é o francês, que todos os irmãos falam. A diversidade cultural exige uma grande atenção e respeito mútuos, mas é também fonte de enriquecimento e ajuda-nos a alargar os horizontes e a pressentir a universalidade da Igreja.

Como é que o Ir. Roger o marcou? Que traços mais admira nele?

O irmão Roger iniciou um caminho que nós agora procuramos continuar. Entre os irmãos sentimos evidentemente um grande afecto pela sua pessoa e admiração pelo que conseguiu realizar. Foi realmente um irmão para todos nós e esse será talvez o seu aspecto mais marcante. A forma fraterna, presente, determinada mas muito delicada com que acompanhava os irmãos era bastante inspiradora…

A espiritualidade de Taizé inspira serenidade. O que tem a dizer aos jovens, neste mundo agitado e apressado?

Vejo nos jovens que encontro, em Taizé ou em encontros em diferentes cidades, uma grande sede de paz interior, de silêncio, de espaços onde possam parar. Mas os jovens nem sempre estão conscientes dessa sede: por vezes é preciso provocá-los, fazê-los ver que o stress, a agitação, a dispersão provocada por um sem número de solicitações nos impede de compreender aquilo que realmente queremos. O que posso dizer aos jovens é um convite a não descuidarem a oração, pessoal e comunitária, e a deixarem-se interpelar pelas Escrituras.

Como será possível fazer a experiência de Taizé, vivendo nas nossas terras?

O importante não é a experiência de Taizé, mas a experiência de um encontro pessoal com Cristo. Esse encontro conduz-nos a viver em Igreja, atentos aos irmãos. Taizé é talvez um meio para vivermos isso. Mas, felizmente, há muitos outros. Gosto de desafiar aqueles que acolhemos em Taizé a darem continuidade ao que lá vivem nas suas comunidades locais, nas paróquias, nos grupos e movimentos que a Igreja nos proporciona. Digo-lhes sempre para procurarem dar continuidade à experiência de Taizé, não para a copiarem. Não há grupos de Taizé nem um movimento centrado nos irmãos.

Em Taizé vive-se a unidade do cristianismo… é a antecipação de um mundo mais unido? Como podemos ser mais unidos?

Cada um pode estar atento ao que pode ser feito à sua volta. Não adianta muito falarmos do que não depende de nós… empenharmo-nos concretamente pode doer mais, mas terá certamente mais frutos. Na família, no trabalho, na escola, na paróquia, no grupo de amigos, como poderemos ser fermento de reconciliação? Não há receitas, só uma procura contínua nos pode inspirar nesse sentido.

Correio do Vouga / SDPJV

SDPJV prepara Agosto em Taizé

Numa altura que se programam as próximas férias, o Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional já tem agendada para o período de 15 a 25 de Agosto uma viagem (e estadia) de jovens a Taizé. As inscrições estão abertas até 23 de Junho. Informações disponíveis em www.sdpj-aveiro.org.