Dos velhos fazendeiros com nome às novas fazendas sem rosto
Regressei ao Maranhão (estado do Nordeste Brasileiro onde estive em actividade missionária por quase 5 anos), ao fim de 22 meses de ausência. A par com a inexplicável, porém prazerosa, sensação do “regresso a casa”, fui confrontado com os novos desafios que o povo nordestino, em geral, e o maranhense, em particular, está a enfrentar.
Desta vez, a estadia foi de poucas semanas, porém dois importantes acontecimentos tiveram lugar em São Luís do Maranhão, durante esse período, permitindo-me escutar claramente os gritos do povo.
No fim-de-semana da chegada, dava-se o encerramento do V Nordestão das CEBs – o quinto encontro de representantes das Comunidades Eclesiais de Base nordestinas. Provenientes dos 9 estados que constituem a região Nordeste do Brasil, os cerca de 350 participantes viveram vários dias de celebrações e reflexões sobre o grande tema de fundo CEBs: Ecologia e Missão. Baseada no lema do encontro – “Do ventre da terra amazônica, o grito que ecoa no Nordeste” – foi redigida e publicada uma carta final que li, avidamente, logo que chegou às minhas mãos. Era a constatação de que os antigos problemas do povo, se transformam, cada vez mais, em novos velhos problemas.
Os representantes do povo de Deus, organizado lá nas bases, levantam a voz contra as injustiças cometidas sobre “povos indígenas, quilombolas e afro-descendentes, trabalhadores sem-terra e sem tecto”. Denunciam as inúmeras agressões, comprovadas no dia-a-dia, “à nossa fauna, flora, nossos rios, lagos e lençois freáticos”. Apelam para a multiplicação de “iniciativas concretas de solidariedade em defesa do equilíbrio da criação para neutralizar os impactos destruidores dos grandes projectos neoliberais”. Resumindo, lida a carta, percebi o alerta do povo, perante a degradação do meio ambiente: a urgência de “juntar esforços (…) em defesa da vida e do equilíbrio da criação divina da qual somos parte integrante”.
Porém, alguns dias mais tarde, esperava-me a cidade de Chapadinha, onde os Missionários da Boa Nova me confirmaram a degradação ambiental, especialmente na região do Baixo Parnaíba Maranhense, facto que constatei “in loco”.
Antes do regresso a Portugal, graças à Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e à Comissão Justiça e Paz de S. Luís do Maranhão, surgiu a oportunidade de rever antigos companheiros de luta e “sentir o pulso” das causas.
Na V Conferência Estadual de Direitos Humanos ouvi, em 1.ª pes-soa, os relatos do povo, de chinelo no pé, chapéu de palha e pele gretada do sol. Relatos de quem, historicamente, foi oprimido pelas grandes famílias de fazendeiros, dos quais todos sabíamos os sobrenomes: os Lira, os Almeida, os Vieira, os Leite… Posteriormente, já nos anos 90, as terras mudaram de mãos e os sobrenomes dos fazendeiros passaram a ser de origem germânica ou italiana. Do Sul do Brasil, para o agro-negócio da soja, tinham vindo os “gaúchos”, na sua maioria de ascendência europeia. Foi a época dos grandes “desmatamentos”, toda a devastação da mata nativa que marcou o início do séc. XXI. Agora, porém, o povo fala dos novos fazendeiros, sem rosto nem sobrenome. São os grandes projectos agrícolas, empresas internacionais que se instalam para a produção de soja, de cana de açúcar, que transformam as árvores nativas em carvão vegetal ou, ainda pior, as substituem pelo eucalipto! E foi aí que ouvi, até, o nome de uma empresa com sede na nossa diocese de Aveiro saída das margens do Vouga para engrossar os grandes projectos que, sob a “capa” de contribuir responsavelmente para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, continuam a expulsar os camponeses das terras. São os humildes que se indignam e questionam essas empresas cujos lucros – que crescem na ordem dos 100% por ano – não servem “para distribuir riqueza às populações”.
Volto à carta final do Nordestão das CEBs para reforçar os apelos do povo: a urgência de fazer “memória da Criação de Deus que geme em dores de parto”. É o povo que o repete, mas é, ainda mais, o desafio que o próprio Cristo nos faz: “Quem tem ouvidos, ouça”.
