O malho e a intenção

Educação e Ambiente Há uma fábula, citada por Boris Cyrulnik*, sobre um homem (Charles Péguy) que caminha ao longo de uma estrada e encontra três pessoas.

Inicialmente Charles encontra um homem que parte pedras, com um grande malho. Lê-se-lhe a infelicidade no rosto e os seus gestos são bruscos, de raiva. Charles pára e pergunta-lhe o que está a fazer.

– “Não está a ver – responde-lhe o homem – que só consegui este trabalho estúpido e doloroso”?

Mais adiante, Charles encontra um segundo homem também a partir pedras. Mas este tem um rosto calmo, e os seus gestos são harmoniosos. Pergunta-lhe, igualmente, o que está a fazer.

– “Ora bem, ganho a vida graças a este trabalho cansativo mas com a vantagem de ser ao ar livre.”

Charles continua a caminhar na mesma estrada e encontra um terceiro homem. Este tem a alegria estampada no rosto. Sorri, à medida que vai usando o malho. E em seguida observa com prazer os pedaços de pedra partida. Charles pergunta-lhe, tal como aos dois homens anteriores, o que está a fazer.

– “Eu – responde este homem – estou a construir uma catedral!”

Será que podemos cair na tentação de sentir que os nossos comportamentos ambientalmente corretos – aqueles que fazemos no dia-a-dia, como separar as embalagens de plástico e levá-las para o ecoponto – não valem a pena?

Será que nos podemos deixar “contaminar” por aqueles que afirmam que “isso é insignificante”? Que “não existem ecopontos suficientes” e que “os outros, as grandes empresas, que reciclem! O meu lixo comparado com o deles não é nada!”?

Podemos, de facto. Mas também podemos parar, de vez em quando, e ver como está a nossa forma de agir. E o nosso pensar. E podemos partilhá-lo com amigos, vizinhos e colegas.

Afinal, se eu reciclo plástico ou recolho o óleo de fritar as batatas, porque o faço? E se um colega não recicla, quais os seus motivos?

Pode não parecer, mas é o conjunto dos nossos gestos e convicções, ao longo do tempo, que nos permite “erigir uma catedral”; não será de pedra, alta e visível. Será um mundo mais limpo, onde é bom viver, brincar, trabalhar e respirar.

*Cyrulnik, Boris “O amor que cura”. 1ª ed (2007), p.33. Ésquilo.