Poço de Jacob – 40 quem faz algo por nós, ainda que não necessitemos de imediato ou o favor seja tão simples como o deixar passar… Mostrar-se agradecido é Eucaristia.
Dar graças a Deus é meio de crescimento na fé. Pois vivemos da Graça. Pois tudo é Graça, como diz S. Paulo. Há muita gente no mundo que se esforça por nos dar o melhor, desde a mãe e o pai até à esposa, solícita na refeição, ou o marido cansado do serviço na fábrica, o filho, que acarinhou, ou o avô, que aconselhou.
Contudo, não sei que trauma trazemos connosco, porque agradecemos e pedimos desculpas no trabalho e na rua, mas somos reservados e omissos para com os nossos familiares mais próximos. Já não dizemos: “Amo-te”. Já não pedimos desculpas, embora sempre nos desculpemos. Já não agradecemos nem elogiamos. Temos complexos e vergonha de o fazer com a esposa ou o marido. As palavras de amor só foram espontâneas no tempo do namoro. De muitos desapareceram, trocadas por outros termos que os ouvidos e o coração não gostam de ouvir. Por isso, recomendo aos casais a leitura, em conjunto, do Livro do Cântico dos Cânticos para aprendermos os termos que educam e aquecem o coração do casal e da família.
Mesmo nas ordens religiosas, vemos o quão devotados ao abandono afectivo estão os irmãos e irmãs de comunidade. Sujeitos a uma castração do seu afecto, que, em castidade, celibato e continência, não se pode manifestar em nenhuma outra forma de afecto que edifique a comunidade. Tornam-se os consagrados gente azeda, fria e cruel, até com a natureza. Quantas pessoas se queixam de em sua infância não terem encontrado alegria e carinho nos colégios católicos de religiosos e nas irmãs de um ou outro hospital no mundo. Quanta rigidez nos padres nas suas homilias, que mandam recados do altar para baixo, humilhando e criando desilusão, quando deveriam encher os corações de amor e fé.
Podemos ser célibes, mas, já dizia S. Paulo, o mais importante é a caridade. E o povo de Deus desculpa bem mais depressa um pecado de infidelidade na castidade do que na caridade pastoral. Mas também, quanta ingratidão no povo contra os seus párocos. Que deram e dão o seu melhor. E quando dizem um não a algo que “não me convém”, passam de santos a pecadores, e enchemos jornais, Internet e a Cúria diocesana com as nossas queixas cruéis e manifestamente egoístas.
Mas se olharmos para nosso relacionamento com Deus, a nossa ingratidão não é menor. Vivemos numa mentalidade veterotestamentária (do Antigo Testamento), pensando que só somos abençoados se Deus nos der tudo o que pedimos. E revoltamo-nos se não nos dá e, pior, se ainda nos tira. Ele sabe o que precisamos mesmo antes de lhe pedirmos… Mas nós queremos convencê-lo de que nós é que sabemos de nós.
Penso que quando morrermos, não vamos agradecer só o que Ele nos deu na vida. Nem o que nos tirou. Não vamos agradecer bens e amigos, realizações e obras feitas. Só vamos agradecer é que tenha tido misericórdia de nós e que, apesar de tanta ingratidão para com Ele e para com o próximo, que atro-pelamos tantas vezes. Vamos agradecer-lhe até na nossa indiferença e omissão, que Ele tenha nos dado a vida em abundância, que merecemos pelos méritos do Seu Filho que é e será sempre uma Eucaristia para o Pai.
P.e Vitor Espadilha
